As cenas de
encerramento da vida do Senhor são contadas por Mateus de uma maneira que
enfatiza a excessiva culpa dos líderes de Israel. Essa característica foi
perceptível durante todo o tempo, e a vemos especialmente em Mateus 23. Os
versículos iniciais deste capítulo nos mostram que, embora Sua condenação
oficial tivesse que vir de Pilatos, ainda assim o ânimo que O perseguiu até a
morte foi encontrado nos líderes.
A sequência da
história é quebrada por um parágrafo entre parêntese, dando-nos o miserável fim
de Judas. Parece que ele esperava que o Senhor escapasse de Seus adversários e
passasse pelo meio deles como havia feito outrora, mas agora, vendo-O condenado
e submetendo-Se às suas mãos, estava cheio de remorso e horror pelo que fizera.
Não era o genuíno “arrependimento para a
salvação, que a ninguém traz pesar” (ARA), pois isso anda de mãos dadas com
fé. Agora fé era o que lhe faltava, pois se ele a possuísse, ele teria se
voltado para seu Mestre como Pedro, que também falhou gravemente. Seus olhos se
abriram para o seu pecado e ele o confessou, ao mesmo tempo em que confessava a
inocência de Jesus, mas mesmo assim se precipitou da vida para o túmulo de um
suicida. O próprio homem que foi o instrumental em entregar o Salvador a Seus
inimigos teve que confessar Sua inocência. Deus assim ordenou isto; e é muito
impressionante.
O próprio nome,
Judas, tornou-se um sinônimo de iniquidade, mas Anás e Caifás eram piores do
que ele. O versículo 4 mostra isso. Judas traiu e eles condenaram o sangue
inocente. Ele pelo menos tinha algum sentimento de remorso pelo que fizera – o
suficiente para levá-lo à destruição própria. Eles não tinham sentimento algum.
O que era sangue inocente para eles? Não tinham remorso em derramar, nem tinham
medo do Deus que retribui o mal. Eles estavam preparados para “matar os inocentes”, dizendo em seus
corações: “Tu não o vingarás” (Sl
10:8, 13 – TB). Se tivessem o menor temor de Deus, nunca teriam dito: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos
filhos”, conforme registrado em nosso capítulo.
Judas nunca desfrutou
de suas trinta moedas de prata. Seduzido e finalmente possuído pelo diabo, ele
jogou fora tudo por nada. Esse é sempre o fim da história quando pequenos homens
néscios tentam fazer uma barganha com o gigante espírito do mal. A prata estava
agora novamente nas mãos dos sacerdotes e se tornou a ocasião para eles
coroarem seus outros pecados com suprema hipocrisia. Com escrúpulos legalistas,
eles não podiam colocá-las no tesouro porque era preço de sangue. Mas quem as
tornou assim? Eles mesmos! Então, eles cumpriram a escritura comprando o campo
do oleiro. Seu ato tornou-se público e, assim, o campo adquiriu seu nome. A ironia do julgamento governamental divino pode ser
discernida no nome, pois aquela terra tem sido um campo de sangue e um local de
sepultamento para estrangeiros desde aquele dia; e será ainda em maior medida,
e até o dia em que finalmente o Redentor chegará a Sião.
As autoridades
religiosas entregaram Jesus ao governador civil, e os versículos 11-26 relatam
o que aconteceu diante dele. Quando examinado por Pilatos perante a multidão,
Jesus apenas proferiu duas palavras: “Tu
dizes”, o equivalente a uma palavra, “Sim”, Ele confessou que realmente era
o Rei dos judeus, que era a acusação específica colocada sobre Si na presença
do poder romano. Os três evangelhos sinóticos[1] concordam sobre
este ponto. João registra outras questões levantadas por Pilatos e respondidas
pelo Senhor na relativa privacidade da sala de julgamento, e três vezes ele
registra Pilatos saindo dali para o povo. No que diz respeito ao exame público,
Jesus “nada respondeu”, pois
realmente não havia nada para responder; como Pilatos logo percebeu, embora ele
se maravilhasse grandemente. Ele era bem versado nos modos sutis dos judeus e
sua acurada mente jurídica logo percebeu que a inveja estava no fundo da acusação.
Por outro lado, ele temia a multidão e queria ficar bem com ela.
Por essa causa,
Pilatos tinha uma mente estranhamente perturbada. Para condenar Jesus, ele deveria
violar seu senso judicial, bem como o sonho e a intuição de sua esposa. Ele
estava evidentemente agitado quando o subterfúgio falhou, com o qual ele
esperava se livrar do dilema. A multidão acusadora foi persuadida pelos astutos
sacerdotes e anciãos. A única figura serena na terrível cena é a do próprio Prisioneiro.
Vemos Pilatos virtualmente abdicando de sua função judicial no caso e jogando a
responsabilidade sobre o povo. Ele realmente não se absolveu, é claro, mas isso
levou a multidão a se colocar sob total responsabilidade pelo sangue de seu
Messias. No versículo 25, encontramos a explicação das tristezas que caíram
sobre o povo e que continuaram a seguir insistentemente os passos de seus
filhos até hoje. Eles ainda precisam enfrentar a grande tribulação antes que as
contas sejam acertadas de acordo com o governo de Deus.
Barrabás foi
libertado e Jesus condenado a ser crucificado, e nos próximos versículos (27-37)
vemos Jesus nas mãos dos soldados romanos. Aqui vemos zombaria vulgar,
brutalidade e, finalmente, o ato da crucificação. Para completar Sua humilhação,
eles O contaram entre os transgressores colocando um ladrão de cada lado. Não
houve justiça, nem misericórdia, nem simples compaixão, estivesse Ele nas mãos
das autoridades religiosas, civis ou militares. Judeus e gentios igualmente se
condenaram ao condená-Lo.
Os versículos
39-44 mostram-nos como todas as classes se uniram para injuriá-Lo quando Ele
estava morrendo na cruz. Criminosos inveterados de maneira profunda tiveram que
ouvir palavras severas quando foram condenados à morte, mas não ouvimos falar
sequer do mais atroz e depravado sendo ridicularizado em suas agonias de morte.
No entanto, foi o que aconteceu quando aqu’Ele que era a personificação de toda
a perfeição, divina e humana, estava na cruz. Não houve diferença, exceto no
tipo de linguagem utilizada. “os que
passaram” eram as pessoas comuns inclinadas aos negócios. “Os principais sacerdotes com os escribas e
anciãos” eram as classes superiores. “Os
salteadores” também “O mesmo lhe
lançaram em rosto”. Eles representavam a mais baixa, a classe criminosa;
mas eles apenas seguiram a forma de agir de maneira grosseira e vulgar. Ele era
o Filho de Deus e o Rei de Israel: Ele poderia ter mostrado Seu poder tão
facilmente quanto Ele o apresentará em julgamento muito em breve. Porém Ele
estava exibindo amor divino permanecendo onde os homens O colocaram com mãos
perversas e suportando Ele mesmo o julgamento do pecado.
Mateus não
desenvolve isso de um modo doutrinário, mas ele passa adiante para registrar as
solenes três horas de trevas, perto do final de tal tempo o santo Sofredor proferiu
em alta voz o brado que havia sido escrito pelo Espírito de profecia nas
palavras iniciais do Salmo 22, 1.000 anos antes. A resposta ao clamor é
fornecida no terceiro versículo do Salmo: “Tu
és Santo, O que habitas entre os louvores de Israel”. Um Deus santo pode
somente habitar entre os louvores de um povo pecador se a expiação for consumada
ao ser suportado o julgamento do pecado. O abandono era o resultado inevitável
daqu’Ele que não conheceu pecado, sendo feito pecado por nós. Os espectadores
não sabiam nada disso: de fato, eles não pareciam capazes de distinguir entre
Deus e Elias.
Depois disso,
houve, como registrado no versículo 50, um último alto brado, e então a entrega
de Seu espírito. As palavras reais desse último brado nos são dadas em parte em
João e em parte em Lucas. Foi um alto brado, mostrando que Sua força não estava
enfraquecida, e assim a entrega de Seu espírito foi um ato de Sua própria
deliberação. Sua morte foi sobrenatural e foi imediatamente seguida por sinais
sobrenaturais, indicando sua significância e poder.
O primeiro desses atos foi Deus tocando o
véu do templo, que tipificava Sua carne, como Hebreus 10 nos diz. Sob a lei “o caminho do santuário não estava
descoberto” (Hb 9 8); mas agora foi feito “manifesto” (ARA), pois a morte de Cristo é a base de nossa
aproximação a Deus. O segundo ato
tocou a criação material, pois a Terra tremeu, as pedras foram fendidas e os
sepulcros abertos. O terceiro tocou
os corpos dos santos que dormiam e, após a Sua ressurreição, eles surgiram e
apareceram a muitos em Jerusalém. Um testemunho triplo foi assim apresentado da
maneira mais impressionante. O primeiro dizia respeito à presença de Deus, mas
ocorreu na figura do véu, que era visto apenas pelos olhos dos sacerdotes. O
segundo, no reino da natureza, deve ter sido sentido por todos. O terceiro, sem
dúvida, era para os olhos dos verdadeiros santos. Além desses sinais, o Sol deixou
de brilhar. Houve amplo testemunho da maravilha daquela hora, mesmo assim não
lemos de ninguém sendo impressionado, exceto o centurião de plantão e os que
estavam com ele. No seu coração foi forjada a convicção de que aqui estava o
Filho de Deus – exatamente aquilo que o Seu povo negou, e ainda nega.
Como é
frequentemente o caso, quando os homens falham em coragem e devoção, as
mulheres suprem a falta. Os discípulos haviam desaparecido, mas muitas mulheres
permaneciam em volta da cena, embora estivessem de longe. Um homem, porém, se
adiantou e teve a coragem de se identificar com o Cristo morto, pedindo o Seu
corpo a Pilatos, e era alguém inesperado. Ele era um discípulo de Jesus, mas
até então em oculto, como nos é dito no evangelho de João. Ali estava o homem
rico com o novo túmulo, que agia de tal maneira que Isaías 53:9 se cumpriu. Não
sabemos nada que José de Arimateia tenha feito a não ser este ato. Deus nunca
deixa de ter um servo da Sua vontade que cumpra a Sua Palavra. José nasceu no
mundo para cumprir aquela breve afirmação profética e, assim, embora os homens
tivessem designado Seu túmulo com os iníquos, Ele estava com os ricos em Sua
morte.
As mulheres que
foram testemunhas de Sua morte e Seu sepultamento foram caracterizadas pela
devoção, mas não pela inteligência. Foram Seus amargos inimigos que lembraram de
que Ele havia predito que Ele ressuscitaria dos mortos. Seu ódio aguçou suas
memórias e sua sagacidade, e levou a sua delegação a Pilatos com um pedido de
precauções especiais a serem tomadas. Suas conquistas em vida eles repudiam,
considerando-as como o primeiro erro. Eles temiam que Sua ressurreição fosse
estabelecida, percebendo que isso teria efeitos muito mais poderosos. Para sua
mente isso seria o último erro e pior que o primeiro. Isso iria inevitavelmente
justificá-Lo e condená-los, como eles viram muito bem.
Assim como com
José, assim com esses homens, Pilatos estava de ânimo condescendente. O pedido
deles foi concedido: a vigilância dos soldados foi estabelecida, mas parece que
houve um toque de ironia em suas palavras: “ide,
tornai-o seguro, como entendeis” (AIBB). Eles fizeram tudo o que puderam e,
como resultado, nada conseguiram a não ser colocar o fato de Sua ressurreição além de qualquer
dúvida plausível quando Ele ressuscitou, e seus elaborados arranjos foram todos
postos de lado. Deus transformou sua sabedoria em loucura e fez com que sua conspiração
servisse ao Seu próprio propósito e derrubasse o deles.
[1] N. do T.: Evangelhos Sinópticos
ou Evangelhos Sinóticos é um termo que designa os Evangelhos de
Mateus, Marcos, Lucas por conterem uma grande quantidade de histórias em comum,
na mesma sequência, e algumas vezes utilizando exatamente a mesma estrutura de
palavras.