O Senhor começou
então a falar aos Seus discípulos, embora na presença da multidão,
instruindo-os nos princípios do reino. Primeiro de tudo Ele mostrou que tipo de
pessoa vai possuir o reino e desfrutar de seus benefícios. Nos reinos dos
homens hoje, alguém precisa de muita confiança própria e ousadia para ser um
sucesso, mas o oposto é o que vale para o reino dos céus. Isso já havia sido
indicado no Velho Testamento: o Salmo 37, por exemplo, especialmente o
versículo 11, mostra isso claramente; no entanto, o Senhor aqui nos dá uma
visão muito mais ampliada deste fato. Ele realmente esboça para nós uma imagem
moral do remanescente piedoso que finalmente entrará no reino. Ele menciona oito
coisas, começando com a pobreza de espírito e terminando com a perseguição, e
há uma sequência em sua ordem. O arrependimento produz pobreza de espírito e é
onde todos devem começar. Então vem o choro e a mansidão induzida por uma
verdadeira visão de si mesmo, seguida por uma sede pela justiça que só é
encontrada em Deus. Então, cheio disso, o santo exterioriza o próprio caráter
de Deus – misericórdia, pureza, paz. Mas o mundo não quer Deus ou o Seu
caráter, portanto a perseguição fecha a lista.
A bênção,
contemplada nos versículos 3-10, deve ser plenamente realizada no reino dos
céus, quando for estabelecido na Terra. Em cada bem-aventurança, salvo a última,
o piedoso é descrito de maneira impessoal: nos versículos 11 e 12, o Senhor
fala pessoalmente aos Seus discípulos. O “deles”
do versículo 10 mudam para o “vós”
do verso 11; e agora, falando aos Seus discípulos, a recompensa no céu é
prometida. Ele sabia que esses Seus discípulos deveriam passar para uma nova e
celestial ordem de coisas, e assim, enquanto reafirmava as coisas antigas sob
uma luz mais clara, Ele começou a indicar algumas das novas coisas que estavam
prestes a acontecer. A mudança nesses dois versículos é impressionante e ajuda
a mostrar o caráter do “Sermão da
Montanha”, no qual o Senhor resumiu Seu ensino e relacionou-o com as coisas
antigas dadas por meio de Moisés. Em João 13-16, que podemos chamar de “O Sermão no Cenáculo”, nós O
encontramos expandindo Seu ensino e relacionando-o com a plena luz que Ele
daria quando o Espírito Santo viesse.
Na perseguição
por Sua causa, Seus discípulos deveriam ser abençoados, e eles deveriam
reconhecer isso e se regozijar. Naturalmente nos afastamos da perseguição, mas
a história prova a verdade dessas palavras. Aqueles que estão identificados com
Cristo de forma plena e ousada têm que sofrer, mas são sustentados e
recompensados; enquanto aqueles que tentam se esquivar por meio de concessões,
perdem todas as recompensas e são miseráveis. E, além disso, é quando o
discípulo é perseguido pelo mundo que definitivamente ele se torna “o sal da Terra” e “a luz do mundo”. O sal preserva e a luz ilumina. Não podemos ser
como o sal saudável na Terra se somos da Terra. Não podemos ser como uma luz
levantada no mundo se somos do mundo. Agora, nada mais ajuda a nos manter
distintos e separados da Terra e do mundo do que a perseguição do mundo, não
importa de que forma seja. Perseguido por amor de Cristo, o discípulo é verdadeiro
sal com que se salga, e ele também emite um máximo de luz. Esta palavra de
nosso Senhor não nos revela o segredo de grande parte de nossa fraqueza?
Note também que
a luz deve brilhar nas coisas práticas, não apenas nas coisas teológicas. Não é
que os homens reconheçam a luz em nossos ensinamentos claros ou próprios
expressos em palavras, mas sim em nossos atos e obras. Eles certamente devem
ouvir nossas boas palavras, mas devem ver nossas boas obras, se quisermos ser
luz para eles. A palavra “boas” aqui
não significa exatamente benevolente, mas sim corretas ou honestas. Tais ações
encontram sua fonte no Pai no céu: elas derramam Sua luz e glorificam-No.
Do versículo 17
ao final de Mateus 5 encontramos o Senhor dando a conexão entre o que Ele
ensinou e aquilo que havia sido dado por meio de Moisés. Ele não veio anular ou
destruir o que havia sido dado anteriormente, mas sim dar a plenitude dela –
pois tal é o significado aqui da palavra “cumprir”.
Ele corroborou e aplicou tudo o que havia sido dito, como os versículos 18 e 19
mostram, e nem uma palavra que Deus havia falado estava para ser quebrada. E,
além disso, como mostra o verso 20, Ele insistiu que a justiça que a lei exigia
tinha nela uma plenitude que excede em muito qualquer coisa conhecida ou
reconhecida pelos superficiais escribas e fariseus de Seu dia. Eles prestavam
uma obediência técnica em questões cerimoniais e ignoravam o verdadeiro
espírito da lei e o objeto que Deus tinha em vista. Sua justiça não conduzia
para o reino.
Consequentemente,
Ele procedeu para mostrar que havia uma plenitude de significado nas exigências
da lei que os homens não tinham suspeitado, referindo-Se a nada menos que seis
pontos, como ilustrando Seu tema. Ele falou do sexto e sétimo mandamentos;
então da lei quanto ao divórcio em Deuteronômio 24:1, em seguida, quanto aos
juramentos em Levítico 19:12; então da lei da retribuição como dada em Êxodo
21:24 e em outros lugares; e, finalmente, e finalmente, da autorização ao ódio
contra os inimigos como é encontrado em Deuteronômio 23:6.
Quanto aos dois
mandamentos que Ele citou, Seu ensinamento evidentemente é que Deus tem em
conta não apenas ao ato evidente, mas também à disposição interior do coração.
O que é proibido não é meramente o ato do homicídio ou adultério, mas o ódio e
a concupiscência dos quais o ato é a expressão. Julgados por esse padrão, quem
vai se colocar diante das santas demandas do Sinai? A “justiça” do escriba e fariseu colapsa completamente com tudo isso.
No entanto, em ambos os casos, tendo exposto esse fato, Ele acrescentou mais
algumas instruções.
Nos versículos
23-26, Ele mostrou duas coisas de importância: Em primeiro lugar, que nenhuma
oferta é aceitável por Deus se for apresentada enquanto houver injustiça para
com o homem. Não podemos tolerar o mal em relação ao homem pela professa
piedade para com Deus. Somente quando a reconciliação for efetuada, poderá haver
aproximação a Deus. Então, em segundo lugar, se a questão que causa a desavença
é levada à lei, a lei deve seguir seu curso apartado da misericórdia. As
palavras do Senhor aqui, sem dúvida, têm significado profético. A nação judaica
estava prestes a processar o caso deles contra Ele, transformando-O em seu “adversário”, e isso resultará em sua
condenação. Eles ainda nem pagaram o último “ceitil [centavo – ARA]”.
Então, no
próximo exemplo: aqui Ele nos mostra que qualquer sacrifício vale a pena, se
leva a uma libertação do inferno que se coloca no final.
Nos terceiro e
quarto casos (31-37) Ele novamente nos mostra que o que foi ordenado por meio
de Moisés não expressou a plena mente de Deus. Tanto o divórcio quanto o
juramento eram permitidos e, portanto, o padrão que os homens tinham de
alcançar não era muito severo. Ambas as questões são aqui colocadas sob uma luz
mais completa, e vemos que apenas uma coisa deve ser permitida para dissolver o
vínculo matrimonial; e então que a palavra dos homens deve ser tão inequívoca e
obrigatória, que tomar juramentos fortes, por isto ou por aquilo, não é
necessário. O homem, que apoia quase todas suas afirmações por um juramento, é
um homem cuja simples palavra não é confiável.
Então,
novamente, a lei estipulou que os ferimentos infligidos fossem retribuídos por
ferimentos do mesmo tipo. Ela ordenou o que podemos chamar de “pagar na mesma
moeda”; enquanto também requeria amor ao próximo, permitia o ódio contra um
inimigo. O Senhor reverteu tudo isso. Ele inculcou[1] a
tolerância e a graça que dá, ao invés de alguém insistir em seus direitos; e
também o amor que bendirá e fará bem ao inimigo. E tudo isso para que Seus
discípulos sejam bem distintos dos pecadores do mundo e se manifestem no
caráter do próprio Deus.
Deus é
apresentado a eles não como Jeová, o Legislador, mas como “vosso Pai que está nos céus”. Isto é, Ele agora é apresentado sob
uma nova luz. É isso que governa os ensinamentos do Senhor aqui, pois se O conhecermos
dessa maneira nova, descobriremos que Ele Se destaca pela benevolência para com
os injustos e os maus, e devemos ser, em nossa medida, o que Ele é. No
ministério de Jesus, uma nova revelação de Deus estava surgindo, e isso resultou
num novo padrão de perfeição. Devemos nos manifestar praticamente como filhos
de nosso Pai nos céus, pois a perfeição de um filho é para ser como a do Pai.
Oito vezes Ele
diz neste capítulo: “Vos digo que”,
e em seis dessas ocasiões essas palavras são precedidas pela palavra “Porém”, colocando Sua prescrição em
contraste com o que a lei havia dito anteriormente. Podemos muito bem
perguntar: “Quem é Esse que cita a santa lei de Deus e depois diz calmamente: ‘Eu, porém, vos digo’ – assim e assim?
Ele na verdade altera e amplia a lei, algo que nenhum profeta jamais se atreveu
a fazer! Isso não equivale a uma terrível presunção, beirando a blasfêmia?”
Sim, verdadeiramente, e apenas uma única explicação tirará essa acusação de sobre
Ele. Mas essa única explicação é verdadeira: aqui temos o autêntico Legislador,
que uma vez falou do Sinai. Agora Ele veio em Humanidade, como Emanuel. Emanuel
subiu em outra montanha e agora fala não a uma nação, mas a Seus discípulos.
Ele tem todo o direito de ampliar ou reformar Sua própria lei.
[1] N. do T.: Significado: Ensinar e
imprimir algo no espírito de outro por frequentes repetições e admoestações.