Das alturas alcançadas
no último capítulo, descemos às profundezas da loucura e da cegueira humanas,
como demonstradas pelos fariseus. Neste capítulo, O vemos definitivamente
rejeitado pelos líderes dos judeus, e não apenas pelas cidades da Galileia. Nos
dois primeiros casos, a disputa foi em torno do sábado. O Senhor defendeu a
ação de Seus discípulos em pelo menos quatro fundamentos (vs. 3-8).
Em primeiro lugar, quando Davi, o rei
ungido de Deus estava sendo rejeitado, suas necessidades tiveram prioridade
sobre uma questão de ordem do tabernáculo, e seus seguidores estavam associados
a ele nisso. O maior Filho de Davi estava agora rejeitado, então as
necessidades de Seus discípulos não deveriam ser satisfeitas, mesmo que isso
violasse suas regulamentações do sábado? Em segundo,
o templo tinha prioridade sobre o sábado, pois os sacerdotes sempre trabalhavam
nos sábados; e Jesus afirmou ser maior que o templo. Deus estava verdadeiramente
em Cristo em medida infinitamente mais completa do que jamais esteve no templo.
Terceiro, havia uma palavra sobre
misericórdia em Oséias 6, à qual anteriormente Ele havia Se referido; que é aplicada
neste caso. E, quarto, Jesus afirmou
que, como Filho do Homem, Ele era o Senhor do sábado: em outras palavras, o
sábado não tinha poder sobre Ele. Ele era o seu Senhor, e Ele poderia Se dispor
dele como bem entendesse.
No segundo caso,
o Senhor respondeu ao jogo de palavras deles por um apelo ao que eles próprios praticavam.
Eles não tinham remorso em se preparar para trabalhar no sábado a fim de
mostrar misericórdia a uma ovelha. Quem eram eles então para contestar a Sua
misericórdia para com um homem no sábado? O Senhor prontamente mostrou essa
misericórdia; contudo, tal era a obstinada dureza de seus corações, que Sua
misericórdia apenas despertava neles pensamentos de homicídio. Eles decidiram,
a partir desse momento, sobre Sua morte.
Diante disso,
Jesus começou a deixar de dar testemunho Seu a eles pois estavam preparando
para colocá-Lo na morte; advertindo aqueles a quem Ele ainda estendia
misericórdia de que eles não deveriam torná-Lo conhecido. Mateus cita a linda
profecia de Isaías 42, mostrando como ela foi cumprida n’Ele. Algumas delas
ainda precisam ser cumpridas em Sua segunda vinda, pois Ele ainda não fez
triunfar o juízo. Mas Ele enfrentou o amargo ódio e rejeição em Sua primeira vinda
sem contenda ou clamor ou esmagando Seus inimigos. Nada é mais inútil do que uma
cana quebrada, e nada mais repulsivo às narinas do que um morrão que fumega. Os
fariseus eram como estes dois, mas Ele não os quebrará e os apagará até que
chegue a hora do julgamento. Enquanto isso, em Seu Nome, os gentios estão
aprendendo a confiar.
Em Isaías 32, as
vindas não são distinguidas, como é frequentemente o caso nas escrituras do Velho
Testamento, mas agora podemos ver claramente como ambas estão envolvidas. Neste
momento, Jesus veio como o vaso de misericórdia e não para exercer julgamento.
Rejeitado pelos líderes de Seu povo, Ele Se voltaria para os gentios e deixaria
a misericórdia fluir para eles. Isto é claramente anunciado aqui.
Não é isto de
imenso interesse para nós, vendo que estamos entre os gentios que confiaram em Seu
Nome?
Por parte dos
fariseus, temos visto o ódio se elevar a ponto do homicídio; e vimos, da parte
de Jesus, tal mansidão e humildade de coração que O levaram a suspender toda a
ação em julgamento e a aceitar o mal deles sem contendas ou protestos. Mateus
agora registra o caso de um homem que se tornou cego e mudo por um demônio.
Jesus deu-lhe visão e fala, expulsando o demônio, e a multidão, grandemente admirada,
começou a pensar n’Ele como o verdadeiro Filho de Davi. Vendo isto, os fariseus
se levantaram com medidas desesperadas, e repetiram ainda mais ousadamente a
afirmação blasfema de que o poder que Ele exercia era de Satanás. Sua blasfêmia
anterior (veja Mt 9:34), passou sem resposta, mas desta vez o Senhor julgou a
ousadia.
Em primeiro lugar, Ele Se opôs a eles no
terreno da razão. A acusação deles envolvia um absurdo, pois se Satanás
expulsasse Satanás, estaria destruindo seu próprio reino. Também envolvia uma calúnia
contra seus próprios filhos, que professavam expulsar demônios. Em segundo lugar, Ele lhes deu a verdadeira
explicação: Ele estava aqui em Humanidade, agindo pelo Espírito de Deus, e
assim amarrara Satanás, o homem forte, e agora estava tirando de sob o seu
poder aqueles que tinham sido apenas seus “bens”.
Esta foi outra prova clara de que o reino estava no meio deles.
Também trouxe
coisas para uma visão muito clara, que não estar definitivamente com Cristo e não
ajuntar com Ele, era estar contra Ele e espalhar. Isso levou o Senhor a
desmascarar a verdadeira natureza do pecado deles, que estava além da fronteira
do perdão, apesar do fato de que todo tipo de pecado poder ser perdoado. Deus
lhes foi apresentado objetivamente no Filho do Homem: eles poderiam falar
contra Ele, e ainda assim ser trazidos pela obra do Espírito ao arrependimento,
e assim serem perdoados. Mas blasfemar contra o Espírito Santo, por Quem o
arrependimento e a fé são produzidos na alma, é colocar-se em uma posição sem
esperança. É alguém deixar de lado tanto o arrependimento como a fé, e assim
trancar e barrar a única porta que leva à salvação.
O triste fato
era que esses fariseus eram árvores totalmente corruptas, uma geração de
víboras e suas más palavras haviam sido apenas a expressão do mal de seus
corações. Nos versículos 33-37, o Senhor desmascarou seus corações dessa maneira
e declarou que seriam julgados por suas palavras. Se os homens terão que prestar
contas de cada palavra vã no dia do julgamento, o que palavras más como essas
merecerão? Naquele dia, por suas palavras, eles seriam totalmente condenados.
Pelo pedido
deles, registrado no versículo 38, os fariseus revelaram que eram moralmente
cegos e insensíveis, bem como corruptos e maus. Ignorando, de forma inconsciente
ou voluntariamente, todos os sinais que haviam sido dados, pediram um sinal. Podemos
notar cinco sinais no capítulo 8 e cinco no capítulo 9, além dos registrados em
nosso capítulo. Sendo maus e adúlteros eles não podiam perceber o sinal mais óbvio,
então nenhum sinal deveria ser dado, senão o maior de todos – Sua própria morte
e ressurreição, que havia sido tipificada na notável história de Jonas. A
geração que estava rejeitando o Senhor estava na presença de sinais, mais do
que todos os outros que foram antes deles. Jonas e sua pregação havia sido um
sinal para os ninivitas, e em uma data anterior Salomão e sua sabedoria havia
sido um sinal para a rainha do sul, e resultados impressionantes haviam sido
alcançados. No entanto, Jesus foi rejeitado.
E ainda assim,
Jesus permanece infinitamente acima de todos eles. Em nosso capítulo, Ele fala
de Si mesmo como “maior do que o templo”,
“maior do que Jonas”, “maior do que Salomão”. Além disso,
deve ser observado que Ele indicou como Jonas e Salomão haviam sido sinais para
os gentios. Embora servos de Deus em Israel, sua fama foi para o norte – para
Nínive e para o sul – para Sabá, respectivamente. Esses gentios tinham ouvidos
para ouvir e corações para apreciar, mas os judeus farisaicos que cercavam o
nosso Senhor eram cegos e amargamente opostos, a ponto de cometerem esse pecado
imperdoável.
Qual seria o fim
dessa geração incrédula? O Senhor nos diz nos versículos 43-45. O espírito
maligno da idolatria, que os influenciara em sua história anterior, de fato se
afastou deles. Cristo, o Revelador do verdadeiro Deus, deveria ter ocupado a
casa; mas eles estavam rejeitando-O. O resultado disto seria o retorno daquele
espírito maligno com sete outros piores que ele. Essa palavra de nosso Senhor
será cumprida nos últimos dias por meio do anticristo. A raça descrente dos
judeus adorará a imagem da besta e será escravizada por poderes satânicos de
terrível potência. Quando o julgamento cair, os judeus apóstatas, sobre os
quais ele cairá, serão piores do que todos os que os precederam. Acreditamos
que a mesma coisa será verdade para as raças gentias também.
O capítulo
termina com o incidente significativo relativo à mãe e irmãos de Jesus. Na
verdade, eles vieram com um espírito errado, como é visto consultando Marcos
3:21 e 31. Isso, no entanto, não é o ponto aqui. O Senhor usou a ocasião da
intervenção deles para rejeitar um relacionamento meramente natural e mostrar
que o que contaria a partir de então seria um relacionamento de natureza
espiritual. Dessa forma figurativa, Ele colocou de lado naquele momento o
antigo elo formado por Sua vinda como o Filho de Abraão, o Filho de Davi, e
mostrou que o elo a ser reconhecido agora era aquele formado pela obediência à
vontade de Deus. Os judeus como povo, tinham rejeitado a Ele e agora Ele os rejeita.
Ele reconhece Seus discípulos como estando em verdadeira relação com Ele, pois,
embora fracos, eles começaram a fazer a vontade de Seu Pai no céu.