A pergunta dos
discípulos: “Quem é o maior no reino dos
céus?” mostrou que o reino estava preenchendo os pensamentos deles naquele
exato momento. A resposta deixou claro que a única maneira de entrar no reino
era tornando-se pequeno, e não grande. Como resultado da conversão, uma pessoa
se humilha e se torna como uma pequena criança. Definitivamente, aparte disso
ninguém está no reino. Então, quando entramos, assim progredimos; consequentemente,
o mais humilde é o maior no reino. Os discípulos precisavam ter revolucionadas suas
ideias sobre esse assunto e, assim também, todos precisamos com frequência. É
evidente que aqui o Senhor não fala do reino como a esfera de profissão da qual
o mal terá que ser tirado, como no capítulo 13, mas como uma esfera marcada por
realidade vital.
Para responder à
pergunta, Jesus chamou uma pequena criança e colocou-a no meio como uma lição
objetiva. Ele prossegue mostrando que uma dessas crianças, se apresentada em
Seu nome, torna-se uma pessoa de grande importância. Recebê-la equivale a
receber o próprio Senhor. Nos versículos 2-5, um “menino [pequena criança
– JND]” está em questão; no
versículo 6, é “um destes pequeninos,
que creem em Mim”. Ofender um desses merece o julgamento mais severo, e
isso leva o Senhor a colocar Seus discípulos à luz das coisas eternas. Existe
algo como “fogo eterno”, e qualquer
sacrifício é melhor do que incorrer nisso.
Até o versículo
14 ainda estamos ocupados com os pequeninos. Eles não devem ser desprezados por
três razões. Primeiro, eles são os objetos contínuos do ministério angélico e
são representados diante da face do Pai no céu. Segundo, eles são objetos da graça salvadora do Salvador. Terceiro, a vontade do Pai é para com eles
em bênção; Ele não deseja que nenhum um se perca. Doces palavras de conforto
para aqueles que perderam seus pequeninos no início da vida, dando ampla
garantia de sua bênção. A comparação do versículo 11 com Lucas 19:10 é instrutiva.
Ali estava em questão um homem adulto, que tivera muito tempo para se desviar;
então a palavra “buscar” é
encontrada. Aqui, onde a criança está em questão, ela é omitida. A tendência a
se desviar está presente em cada um, como os versículos 12 e 13 indicam, mas o
afastamento não é levado em conta da mesma maneira até que anos de
responsabilidade sejam alcançados.
Os versículos
1-14, então, lidam com o “menino” e
o reino. versículos 15-20 com o “irmão”
e a Igreja. No capítulo 16:18-19, tivemos a Igreja e o reino, e ambos
reaparecem aqui. Se é uma questão da pequena criança, nossa tendência é
ignorá-la e desprezá-la. Se nosso irmão estiver em questão, há uma triste
tendência para desentendimentos e ocasiões de transgressão ocorrerem, e estes são
agora contemplados nos ensinamentos do Senhor. Temos instruções definitivas
quanto ao procedimento a ser seguido, e o desprezo de tais instruções tem
produzido danos incalculáveis. Se um irmão me ofendeu, meu primeiro passo é ir
ter com ele sozinho e apontar seu erro. Se eu fizer isso no espírito correto,
muito provavelmente ganharei o irmão e terei as coisas ajustadas. De outra
forma, é claro, posso perceber que meus pensamentos é que precisavam ser
retificados, pois as coisas não eram como pareciam.
Mas ele pode não
me ouvir, e então eu devo me aproximar dele novamente com um ou dois irmãos
como testemunhas, para que seu erro possa ser trazido diante dele de maneira
mais definida e imparcial. Somente se ele ainda for obstinado é que a Igreja
deve ser informada para que ele possa ouvir a voz de todos. Se ele for tão
longe a ponto de desconsiderar a voz da Igreja, então devo tratá-lo como alguém
com quem qualquer comunhão é impossível.
Será
notado que o Senhor não prossegue dizendo o que a Igreja deve fazer; sem
dúvida, porque as transgressões são de muitos tipos e graus variados de
gravidade, de modo que nenhuma instrução se aplicaria a todos os casos. O verso
18, no entanto, implica que haveria casos em que a Igreja teria que “ligar” o malfeitor e então, outros
casos onde sua ação teria que ser da natureza de “desligar”. Aqui achamos que, o que tinha sido dito anteriormente somente
a Pedro, agora é dito para a Igreja. Tratar isso corretamente significaria
muita dependência de Deus e oração. Além disso, mesmo nos primeiros dias, e sob
circunstâncias mais favoráveis, dificilmente seria possível reunir toda a Igreja
em um só lugar. Por isso, nos versículos 19 e 20, o Senhor reduz as coisas à
menor pluralidade possível, mostrando que o poder da oração e a ação da Igreja não
depende de números, mas de Seu nome. No caso pequena criança e do reino, o
ponto importante era “em Meu nome”.
No caso do irmão e da Igreja novamente “em
[ou para o] Meu nome” é o que decide.
Todo o peso da autoridade está aí.
O verso 20 às
vezes é citado como se descrevesse certa base de comunhão, verdadeira em todos
os momentos para aqueles na comunhão. Mas o Senhor falou não de estar reunido
simplesmente, mas de estar “reunido
junto” (JND); isto é, Ele falou de uma reunião de fato. Seu Nome é de tal
valor que, se apenas dois ou três estiverem reunidos para esse nome, Ele está
lá no meio, e isto dá poder aos pedidos deles e autoridade a seus atos. Ele
está espiritualmente presente, não visivelmente: uma provisão maravilhosa e
graciosa para os dias em que a Igreja não pode estar reunida como um todo,
devido ao seu estado partido e dividido. Podemos ser muito gratos por isso, mas
vamos tomar cuidado com o modo como a usamos.
Tem havido uma tendência
de fazer deste “ajuntamento” ao Seu Nome apenas uma questão de uma posição da Igreja,
eliminando dela todo o cuidado da condição moral. Então, podemos ser tentados a
argumentar que isso ou aquilo deve ser ratificado no céu ou concedido pelo céu,
porque agimos ou pedimos em Seu Nome. Deveríamos ser muito mais sábios se pisássemos
mais suavemente, e quando não víssemos sinais do céu ratificando ou concedendo
algo, nos humilhássemos e esquadrinhássemos nossos corações e caminhos a fim de
descobrir onde perdemos a verdadeira reunião juntos em Seu Nome; ou se, na
verdade, o tempo todo estávamos apenas andando diante de nós mesmos, e nosso
estado moral errado.
No verso 21,
encontramos Pedro levantando o outro lado da questão. E quanto à parte ofendida
ao invés da parte ofensora? A resposta de Jesus chegou a isso – o espírito de
perdão para com meu irmão deve ser praticamente ilimitado.
Então, Ele falou
a parábola quanto ao rei e seus servos, com a qual o capítulo se encerra. O
significado geral dessa parábola é muito claro; o único ponto que notamos é que
ele se refere aos procedimentos governamentais de Deus com aqueles que tomam a
posição de serem Seus servos, como fica claro quando alcançamos o versículo 35,
que dá a própria aplicação do Senhor a ela. Há outra base completamente
diferente para o perdão eterno, mas o perdão governamental muitas vezes depende
do crente manifestando um espírito de perdão. Se tratarmos mal nossos irmãos,
nos encontraremos mais cedo ou mais tarde nas mãos dos “atormentadores” e teremos um tempo de tristeza. E se algum de nós
for testemunha de um irmão maltratando outro, seremos sábios se, em vez de
tomarmos a lei em nossas próprias mãos e atacarmos o transgressor, imitarmos os
servos da parábola e dissermos a nosso Senhor tudo o que foi feito, deixando
que Ele lide com o ofensor em Seu santo governo.