O envio dos doze
não significava que o Senhor suspendeu Seus labores pessoais, como mostra o
primeiro verso; e toda essa atividade agitou João em sua prisão. Podemos bem
imaginar que ele esperava que o grande Personagem, que ele havia anunciado,
fizesse algo em sua causa; mas aqui estava Ele, libertando todos os tipos de
pessoas indignas de suas doenças e problemas, e aparentemente negligenciando
Seu precursor. Testado assim, a fé de João vacilou um pouco. A resposta do
Senhor a João assumiu a forma um testemunho mais abrangente de Suas próprias
atividades em graça, mostrando que Ele estava de fato cumprindo a profecia de
Isaías 61:1; e bem-aventurado foi aquele que não tropeçou por Sua humilhação e pela
ausência da glória exterior que caracterizará Sua segunda vinda.
Então Jesus deu
testemunho de João. Ele não era nenhuma cana oscilante nem homem de luxo; mas era
mais do que um profeta, o próprio mensageiro predito por Malaquias, que devia
preparar o caminho do Senhor. Além disso, João foi o “Elias” do primeiro advento e ele marcou o fim de uma época. A
dispensação da lei e dos profetas correu até ele, e desde o seu dia em diante o
reino dos céus estava aberto inaugurado, e deveria haver “violência” ou o vigor da fé para se obter uma entrada. Quando o
reino chegar visivelmente, não haverá a mesma necessidade de tal vigor de fé.
Tudo isso mostrou quão grande o homem João era, no entanto, o menor dentro do
reino teria uma posição maior do que esse grande homem, que preparou o caminho,
mas ele mesmo não viveu para entrar no reino. A grandeza moral de João era
insuperável, embora muitos de menor peso moral seriam maiores quanto à posição
exterior.
Ao falar de
João, sua grandeza e a posição que lhe foram dadas em relação ao seu
ministério, o Senhor passou a tratar com a indiferença do povo. Eles ouviram a
forte pregação de João e agora ouviram o Senhor e viram Suas obras de poder; no
entanto, nem um nem o Outro realmente os afetaram.
Eles eram como
crianças irreverentes que não seriam persuadidas a participar da peça. Houve
uma nota de severidade no ministério de João Batista, mas eles não mostraram
nenhum sinal de lamento em arrependimento: Jesus veio cheio de graça e do gozo
da libertação, ainda assim eles não manifestaram verdadeiros sinais de alegria.
Em vez disso, descobriram maneiras de desacreditar a ambos.
A reprovação que
eles lançaram contra João era uma mentira descarada, enquanto o seu clamor
contra o Senhor tinha algum elemento de verdade, pois Ele era, no sentido mais forte
possível, “Amigo de publicanos e
pecadores”; Mas eles deram a isso o pior significado possível, pois quando
um adversário lança acusações para desacreditar alguém, ele geralmente acha uma
meia verdade ser mais eficaz do que uma total mentira. Enquanto andamos em
obediência com uma boa consciência, não precisamos temer a lama que os
adversários amam atirar. João, o maior entre os profetas e o próprio Filho do
Homem tiveram que suportar isso. Aqueles que eram filhos da sabedoria não foram
enganados pelos adversários caluniadores. Eles justificaram a sabedoria e
condenaram os adversários. O mesmo fato foi dito em outras palavras quando
Jesus disse: “vós não credes porque não
sois das Minhas ovelhas... As Minhas
ovelhas ouvem a Minha voz” (João 10:26-27).
Nesse ponto,
encontramos o Senhor aceitando o fato de que as cidades da Galileia, onde a
maioria de Suas poderosas obras havia sido feitas, definitivamente O haviam
recusado. Ali lhes fora prestado um testemunho como Tiro e Sidom e a terra de
Sodoma, nunca tiveram. Ora, quanto maior o privilégio, maior a responsabilidade
e mais severo é o julgamento quando o privilégio é desprezado e a
responsabilidade falha. Um triste destino está reservado para Corazim, Betsaida
e Cafarnaum. Seus habitantes naquela época têm que enfrentar o dia do
julgamento, e as suas próprias cidades foram de tal forma destruídas que suas
localizações são motivo de discussão até hoje. Eles haviam rejeitado “Jesus Cristo, o Filho de Davi, o Filho de
Abraão” (Mt 1:1) e, consequentemente, o reino como conferido a Ele.
Mas naquele
momento crítico, Jesus repousa sobre o propósito do Pai e sobre a perfeição de
Seus caminhos – os meios pelos quais Seu propósito deve ser alcançado. As
pessoas cuja indiferença o Senhor havia lamentado eram apenas “os sábios e entendidos” de acordo com
os padrões do mundo; mas depois havia os “pequeninos”
e, para estes, e não aqueles, o Pai havia revelado as coisas de toda
importância naquele momento. Este foi o caminho que Ele teve prazer em aceitar,
e Jesus o aceitou com ações de graças. Este sempre tem sido o caminho de Deus,
e é o caminho de Deus hoje, como vemos em 1 Coríntios 1:21-31. O propósito de
Deus não falhará. O reino como apresentado em Cristo estava prestes a ser
rejeitado: Deus estabelecerá o reino de outra maneira completamente diferente,
mesmo enquanto aguardamos o estabelecimento do reino com manifestação de poder
e glória. Ali serão encontrados aqueles que se colocaram sob o jugo do Filho, e
assim gozarão o descanso do reino em suas almas.
O propósito de
Deus é que todas as coisas repousem nas mãos do Filho. Para este fim todas as
coisas já foram entregues a Ele. No dia vindouro O veremos ordenando todas as
coisas em poderoso julgamento discriminador. Hoje Ele está concedendo o
conhecimento do Pai. O Filho é tão verdadeiramente Deus, que há n’Ele
profundezas insondáveis, conhecidas apenas pelo Pai. O Pai está além de todo
conhecimento humano, mas o Filho O conhece e Se manifestou como Seu grande
Revelador. É como o Revelador do Pai que Ele diz: “Vinde a Mim ... e Eu vos
aliviarei [darei descanso – JND]”. Ele descansava no conhecimento do
Pai, de Seu amor, Seu propósito, Seus caminhos; e a esse descanso Ele conduz
aqueles que vêm a Ele.
Seu convite foi
especialmente dirigido a “todos os que estais
cansados e oprimidos”, isto é, aqueles que estavam sincera e piamente
tentando guardar a lei, que era como Pedro disse, “um jugo que nem nossos pais nem nós podemos suportar” (At 15:10). Quanto
mais sinceros, tanto mais carregados devem ter sido sob aquele jugo. Então, as
palavras do Senhor foram dirigidas aos “filhos
da sabedoria”, aos “pequeninos”;
em outras palavras, ao remanescente piedoso no meio da massa incrédula do povo.
Eles devem agora trocar o fardo pesado da lei pelo jugo leve e suave de Cristo.
Eles aprenderiam d’Ele coisas que a lei nunca poderia ensiná-los.
E, além disso,
Ele os ensinaria de uma maneira nova. Ele exemplificou as coisas que ensinou.
Mansidão e humildade de coração são necessárias se o lugar de sujeição deva ser
tomado e mantido; e estas coisas foram perfeitamente vistas n’Ele. Ele era o
Filho, e ainda assim “aprendeu a
obediência, por aquilo que padeceu” e, tendo essa obediência O levado à
morte, Ele “tornou-Se
o Autor da salvação eterna para todos os que Lhe obedecem” (Hb 5:8-9 – ARA). Em nosso evangelho, vemos o Obediente
nos chamando para a obediência a Si mesmo, uma obediência que não é pesada e
que leva ao descanso. “Descanso para as
vossas almas” foi proposto como resultado de uma caminhada fiel nas “veredas antigas” da lei (Jr 6:16), mas
esse descanso nunca foi alcançado pelos homens. A única maneira de alcançá-lo
foi aquela que se fez conhecida pelo Filho, que veio revelar o Pai. O Pai deveria
ser conhecido se o Seu propósito devesse ser alcançado.