Este capítulo
abre com o Senhor Se apresentando a Jerusalém de acordo com a profecia de
Zacarias. O Senhor havia falado por meio do profeta, e agora, cerca de cinco
séculos depois, a jumenta e seu jumentinho estavam prontos exatamente no
momento certo, sob a responsabilidade de alguém que responderia imediatamente à
necessidade do Senhor. Mais uma vez o Senhor foi claramente sancionado diante
deles como seu Messias e Rei. Ele nasceu da virgem em Belém, foi trazido do
Egito, e Se levantou como a grande Luz na Galileia, como os profetas haviam
dito. Agora, quando as sessenta e nove semanas de Daniel 9 foram completadas,
como Rei, Ele entrou em Sua cidade. Ai! As pessoas ignoravam o fato de que Ele deveria ser manso, e a salvação que Ele
deveria trazer precisava ser compatível com isso, e não baseada em poder
vitorioso. Consequentemente, eles tropeçaram naquela pedra de tropeço.
No entanto, por
um breve momento, parecia que eles poderiam recebê-lo. O exemplo dos discípulos
era contagiante e a multidão honrou-O, saudando-O como o Filho de Davi e como aqu’Ele
que vinha em nome do Senhor. Mas a realidade da fé deles foi logo provada, pois
ao entrar na cidade a questão foi levantada: “Quem é Este?” A resposta da multidão não demonstrou qualquer fé verdadeira.
Eles disseram: “Este é Jesus, o profeta
de Nazaré da Galileia”. É bem verdade, claro, até onde isso alcançava; mas
não foi além do que era óbvio mesmo para aqueles que não tinham fé. Muitos
profetas haviam entrado antes disso e Jerusalém os havia matado.
Jesus havia
acabado de Se apresentar a eles como Rei; assim, tendo chegado à cidade, foi
direto ao templo, o centro da religião deles, e afirmou Seu régio poder ao purifica-lo.
Ele havia feito isso no início de Seu ministério, conforme registrado em João
2; Ele fez isso novamente no final. O comércio e o câmbio de dinheiro no templo
sem dúvida surgiram dos compreensivos arranjos da lei, que Deuteronômio
14:24-26 registram. Homens ímpios haviam se aproveitado dessa provisão para
transformar os recintos do templo em um covil de ladrões. Deus pretendia que Seu
templo fosse a casa onde os homens se aproximassem d’Ele com seus pedidos. Seus
guardiões o haviam transformado em um lugar onde os homens eram enganados, e
assim o nome de Deus era difamado. Destruir ou corromper o templo de Deus é um
pecado de tremenda gravidade. 1 Coríntios 3:17 mostra isso, em sua aplicação ao
templo atual de Deus.
Tendo expulsado
esses homens maus, Jesus dispensou misericórdia às mesmas pessoas que eles
teriam mantidas fora. Os cegos e coxos foram proibidos de se aproximarem em
Levítico 21:18, e 2 Samuel 5:6-8 registra a sentença de Davi contra eles,
dizendo: “Nem cego nem coxo entrará
nesta casa”. O grande Filho de Davi tinha agora chegado a Sião e Ele revoga
a ação de Davi. O tipo de povo que “a
alma de Davi aborrecia” foi amado e abençoado naquele dia. Os mesquinhos cambistas
haviam dado uma falsa impressão de Deus de Quem era a casa, e levaram os homens
a blasfemarem Seu nome: ao curar os necessitados, Jesus representava corretamente
o próprio coração de Deus e, em resultado, havia louvor. Até mesmo os meninos
foram encontrados clamando: “Hosana ao
filho de Davi!” Eles haviam acompanhado o clamor do mais velhos.
Os próprios
líderes religiosos testemunharam Suas maravilhosas obras de poder e graça, e
para seu doloroso desagrado, ouviram o clamor dos meninos. Jesus os justificou
em sua simplicidade, citando o versículo do Salmo 8 como encontrando um
cumprimento neles. O Salmo diz, “ordenaste
força [estabeleceste louvor –
JND]” (ARF), enquanto Ele deu uma
aplicação disso dizendo: “o perfeito
louvor”, mas em ambos os casos o pensamento é que Deus realiza o que Ele
deseja, e recebe o louvor que Ele procura, por meio de coisas pequenas e fracas.
Assim é manifestado que a força e o louvor vêm de Si mesmo para Si mesmo. E assim
aconteceu aqui. Quando os líderes não só estavam em silêncio, mas se opunham,
Deus cuidou de ter um elogio adequado pelos lábios dos meninos.
Naquele momento,
porém, a cidade e o templo estavam sob a custódia desses homens incrédulos;
assim, Ele deixou eles e a cidade e foi para Betânia pela noite – o lugar onde
foi encontrada pelo menos uma família que cria n’Ele e O amava. Voltando na
manhã seguinte, Ele pronunciou Sua sentença contra a figueira que não tinha
nada além de folhas. Tinha aparência exterior, mas não fruto; e naquela árvore
nenhum fruto iria crescer para sempre. Foi totalmente condenada. Imediatamente
se secou! A ocorrência foi tão obviamente milagrosa que obrigou a atenção e o
comentário dos discípulos.
A resposta do
Senhor conduziu seus pensamentos sobre a figueira para “este monte”. A figueira era um símbolo de Israel, mais
particularmente da parte da nação que havia retornado do cativeiro e agora
estava na terra. Julgados nacionalmente não havia nada neles para Deus e eles
foram condenados; e como eles foram tomados como amostras da raça humana, a
árvore infrutífera expôs o fato de que a raça de Adão, como homens na carne, é
condenada e nunca será encontrado neles qualquer fruto para Deus. Jerusalém e
seu templo eram o topo desse “monte”,
que simbolizava, acreditamos, todo o sistema judaico. Se tivessem fé, poderiam
antecipar o que Deus faria na remoção do monte, para que ele submergisse no mar
das nações. A epístola aos Hebreus mostra como o sistema judaico foi posto de
lado, e “este monte” foi finalmente
lançado ao mar quando Jerusalém foi destruída em 70 d.C.
O que é
necessário é fé. Hebreus enfatiza isso, pois nessa epístola está o grande
capítulo sobre fé. O sistema de Israel era, afinal de contas, uma sombra das boas
coisas que viriam e não a própria imagem das coisas. Era necessário fé para
discernir isso, e muitos que creram em Cristo não haviam se livrado das
sombras, mesmo quando Hebreus foi escrita. O homem de fé é aquele que penetra
nas realidades que Cristo introduziu, e tais pessoas podem orar em confiança de
receber o que pedem.
Os líderes
religiosos achavam que a chegada de Jesus em Jerusalém e Suas ações
maravilhosas eram um desafio à autoridade deles, então eles decidiram agir
agressivamente e desafiar a Sua autoridade. Ao fazer isso, iniciaram uma
controvérsia, cujo registro continua até o final do capítulo 22. Ela produziu
três impressionantes parábolas dos lábios do Senhor, seguidas por três
perguntas astutas dos fariseus e herodianos, dos saduceus e de um doutor da lei,
respectivamente; e tudo isso foi coroado pela grande pergunta do próprio Senhor
que reduziu todos os Seus adversários ao silêncio.
Ao exigirem que
Ele mostrasse Sua autoridade, os principais sacerdotes assumiram que tinham
competência para mensurar seu valor quando Ele a mostrasse. A resposta do
Senhor foi virtualmente isso, que eles provassem a autoridade deles pronunciando-se
sobre a questão muito menor da autoridade de João. Ele então submeteria Sua
autoridade ao julgamento deles. Isso imediatamente os mergulhou em dificuldades.
Se eles endossassem o batismo de João como vindo do céu, eles se condenariam
por não terem acreditado nele. Se eles o rejeitassem como sendo apenas dos homens,
eles perderiam popularidade com as pessoas que consideravam João um profeta.
Essa popularidade era muito prezada a eles, pois “porque prezaram mais a glória que vem dos homens” (Jo 12:43). Eles
não diriam que o batismo de João era válido, e eles não ousariam dizer que era
inválido, então eles tomaram uma posição de ignorância, dizendo: “não sabemos”. Assim eles destruíram
sua própria competência para julgar e perderam qualquer possível posição de
protesto quando Jesus Se recusou a revelar Sua autoridade. O poder de Deus que
Ele empunhava deu-Lhe ampla autoridade à parte de qualquer outra coisa. Mas
eles a recusaram e a atribuíram à energia do diabo, como vimos anteriormente no
evangelho.
O Senhor agora
tomou a iniciativa com Suas parábolas. A medida que as consideramos, veremos
que a primeira diz respeito à
resposta a eles como estando sob a lei; a segunda
a resposta a eles, sendo testados pela presença do Filho na Terra; a terceira é profética e olha para a
resposta que seria de acordo com o evangelho. A ordem divina é observada – a Lei, o Messias, o Evangelho.
Jesus inicia a primeira
com as palavras: “Que vos parece?” enquanto
Ele apresentava a curta parábola ao julgamento deles e permitiu que eles se
condenassem. A parábola dos dois filhos em Lucas 15 é um pouco longa, enquanto
aqui temos uma parábola de dois filhos que é bem curta, mas em ambas as mesmas
duas classes são retratadas – os líderes religiosos de um lado, os publicanos e
pecadores o outro. Aqui, no entanto, encontramos responsabilidade deles sob a
lei, enquanto em Lucas 15 é a recepção deles de acordo com a graça do evangelho.
Em várias
passagens do Velho Testamento, a figura de uma vinha apresenta Israel sob a
lei; então as palavras: “Vai trabalhai
hoje na minha vinha”, mais apropriadamente expressam o mandamento de Jeová.
Estas palavras são frequentemente citadas como se eles tivessem incitado os Cristãos
a servir o seu Senhor no evangelho, mas esse não é o seu significado, se lido
em seu contexto. A figura que se aplica a nós é a do trabalho na “seara” e não na “vinha”, como vemos em Mateus 9:38, João 4:35-38 e em outros
lugares. A grande palavra sob a lei era: “Fazei
isto”, pois colocava os homens para trabalhar; mas pelas obras da lei
nenhuma carne foi justificada.
Este fato pode
ser visto na parábola, pois nenhum dos dois filhos foi marcado por obediência
completa. Um fez profissão leal em palavras, mas totalmente desobedecida. O
outro flagrantemente recusou a princípio, mas depois foi levado ao
arrependimento e obediência foi o fruto disso. Assim como os principais
sacerdotes e anciãos estavam se enganando por sua profissão religiosa, enquanto
publicanos e prostitutas se arrependiam e entravam no reino. No versículo 32, o
Senhor definitivamente conecta o assunto com o ministério de João Batista. Ele apareceu
no final da era da lei, chamando aqueles que falharam em obedecê-la ao
arrependimento. Assim, o próprio Senhor conectou a parábola à lei e não ao
evangelho.
A parábola do pai
de família e sua vinha segue. Ainda é a vinha, notamos; e “a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel” (Is 5:7).
Agora, temos não apenas o fracasso deles sob a lei, mas os maus-tratos deles
contra todos os profetas pelos quais Deus Se dirigiu à consciência deles e,
finalmente, a missão do Filho, que veio como o teste supremo. Os “lavradores” da parábola evidentemente
representam os líderes responsáveis de Israel, que agora não apenas repetiram
seu fracasso em produzir qualquer fruto para o benefício do “Pai de família”, mas coroaram sua
maldade matando o Filho. Eles desejavam toda a herança para si mesmos. Assim o
Senhor resumiu a acusação contra Israel sob estes três tópicos: nenhum fruto
para Deus; maus tratos aos Seus servos – os profetas; a rejeição e morte do
Filho.
Tendo proposto a
parábola, Ele novamente disse, com efeito: “Que
vos parece?” – submetendo ao julgamento deles o destino que os lavradores
mereciam. Seus oponentes, embora tão perspicazes quanto às coisas concernentes
a seus próprios interesses, eram insensatos e completamente cegos a tudo quanto
à natureza espiritual. Por isso, eles falharam inteiramente em discernir o sentido
da parábola e deram uma resposta que predisse o justo destino que viria sobre
suas próprias cabeças. Eles achariam a si mesmos em duas palavras: despojados e
destruídos.
O Senhor aceitou
como correto o veredicto que eles haviam passado sobre si mesmos, citando o
Salmo 118:22-23, em corroboração. Ele era a Pedra que eles, os construtores,
estavam rejeitando. Ele não Se encaixava no edifício que eles projetaram e O
recusaram. Um dia está chegando quando Ele será trazido para ser o fundamento e
definir as linhas do edifício que Deus tem em vista; e este evento maravilhoso
envolverá a destruição de homens maus e seu falso edifício.
No versículo 43
e no início do versículo 44, temos os efeitos atuais de Sua rejeição. Ele Se
torna uma pedra de tropeço para os líderes de Israel e a massa da nação, e em
consequência eles são destruídos como um povo. Isso finalmente aconteceu quando
Jerusalém foi destruída. O reino de Deus havia sido estabelecido no meio deles por
intermédio de Moisés, e agora isso foi definitivamente tirado deles, e deveria
ser dado de outra forma a uma “nação”
que produzisse seus próprios frutos. Os profetas antigos haviam denunciado o
pecado do povo e anunciado que Deus levantaria outra nação para substituí-los,
como vemos em escrituras como Deuteronômio 32:21; Isaías 55:5, 65:1, 66:8. Essa
nação nascerá “de uma só vez” no
início da era milenar; isto é, eles nascerão de novo, e assim terão a natureza
que se deleita na vontade de Deus e os capacita a produzir frutos. Nós, Cristãos,
antecipamos isso, como vemos em 1 Pedro 2:9. Redimidos e nascidos de novo,
fomos chamados das trevas para a maravilhosa luz de Deus, e assim somos
capacitados como “uma nação santa”
para mostrar as virtudes daqu’Ele que nos chamou. Isto é certamente produzir
frutos que O satisfazem.
A última parte
do verso 44 refere-se ao que acontecerá aos incrédulos no início do Milênio. As
palavras do Senhor parecem uma referência a Daniel 2:34-35 e estabelecem o
efeito despedaçador do Segundo Advento sobre os homens, sejam judeus ou
gentios. Assim, o ensino desses dois versículos compreende a destruição nacional
de Israel como consequência da rejeição de Cristo por eles; a substituição deles
por uma nova “nação” e a destruição
final de todos os adversários, quando o Senhor Jesus for revelado em fogo
flamejante.
Tendo ouvido
estas coisas, ocorreu nas tenebrosas mentes dos principais sacerdotes e
fariseus que Ele estava falando deles, e que inconscientemente eles estavam
condenando a si mesmos. Que choque isso deve ter causado neles! Em sua derrota,
eles pensaram em dar-Lhe à morte, e só foram contidos por um momento por medo
da opinião pública. No versículo 26, vimos que o temor do povo coloca uma restrição
em suas línguas. No versículo 46, o
temor do povo coloca uma mão restritiva sobre suas ações.