Nessa cena
encantadora, os escribas e fariseus de Jerusalém se intrometiam com suas
queixas e dúvidas quanto à desconformidade dos discípulos com a tradição dos
anciãos quanto à lavagem das mãos. Apenas imagine a cena. O Filho de Deus
dispensando cura por todos os lados na plenitude da graça divina, e esses
homens, totalmente cegos para com tudo o que estava acontecendo, se
intrometendo com uma questão de ordem deles. Cegos por tecnicalidades legais,
eles não podiam perceber a graça divina trabalhando em poder. Tal estado de
espírito pode parecer inconcebível se não virmos a mesma característica exibida
hoje pela mente farisaica, que ainda se ocupa com questões desse tipo, baseadas
na tradição e no uso comum e não na Palavra clara e definida de Deus.
A resposta do
Senhor a esses homens enfatiza a diferença entre “o mandamento de Deus” e “vossa
tradição” (v. 3). Essas tradições dos anciãos eram explicações,
amplificações e deduções extraídas da lei por venerados mestres de antigamente.
Eles dominaram as mentes dos fariseus e obscureceram tanto a lei de Deus ao
ponto de transgredirem a lei para manter sua tradição. O Senhor os acusou disso
e deu uma ilustração em relação ao quinto mandamento. Sua tradição no que diz
respeito a dádivas, professamente dedicadas a Deus, completamente anulava esse
mandamento. O judeu “piedoso” e “ortodoxo”[1] de hoje tem sua
mente cheia do Talmude, que é construído a partir dessas tradições, e é como um
véu, excluindo de sua mente a verdadeira Palavra de Deus.
Vamos tomar
cuidado para não cairmos em uma armadilha similar. Felizmente, podemos nos
valer dos ensinamentos dos servos de Deus, mas, usando-os corretamente, seremos
levados de volta à fonte – à própria Escritura. Não seria difícil transformar
os ensinamentos do melhor dos servos de Deus em uma espécie de Talmude. E assim
os teríamos como uma espécie de cortina de fumaça, escondendo de nós a pura
Palavra de Deus, assim como o Talmude cega a mente judaica para que não veja a
força real do Velho Testamento.
Esse tipo de
coisa, forçada ao extremo como era pelos fariseus, incitou nosso Senhor a uma
forte exposição de seu mal. Eles eram hipócritas, e Ele lhes disse isso muito
claramente. Eles se colocaram sob a severa reprovação de Isaías, pois esse tipo
de perversidade religiosa deve sempre ser encontrada em homens que têm corações
distantes de Deus e ainda O honram com seus lábios, enquanto colocam seus
próprios preceitos e mandamentos no lugar de Sua Palavra. Toda essa adoração
nominal é vazia e vã, porém não é difícil para um verdadeiro crente se enredar
em tais coisas hoje.
Tendo exposto os
fariseus a si mesmos, o Senhor voltou-Se para o povo para avisá-los quanto ao
erro que estava na raiz dessa hipocrisia – a suposição de que a contaminação entra
nos homens como vinda de fora, em vez de gerada internamente; que é física em
vez de espiritual. A coisa contaminada é o que sai da boca de um homem,
expressando o que está em seu coração. O coração do homem é a fonte principal da
contaminação. Fato solene! Os fariseus, é claro, ficaram ofendidos com tal
ensinamento, que cortou pela raiz todas as suas observâncias cerimoniais, mas
isso apenas mostrou que eles não eram plantas da lavoura de Deus. No final
seriam arrancados. Eles eram cegos e enganavam outros que também eram cegos.
Deus trataria com eles em Seu governo, e os discípulos deveriam deixá-los
sozinhos e não revidar.
Mas o que o
Senhor acabara de dizer soava estranho até mesmo para os discípulos; então
Pedro pediu uma explicação, tratando-a como uma parábola. Isso provocou uma
repreensão – embora gentil – do Senhor. O fato era que ninguém, nem mesmo o
melhor deles, via muito além da letra da lei com suas ofertas e regulamentações
cerimoniais e, portanto, tinham muito pouca noção de seu poder de convencimento.
Eles estavam preocupados com o que entrava em suas bocas, a fim de poderem
estar cerimonialmente limpos. A lei, se entendida espiritualmente, se
preocupava com o estado do coração, como o Senhor mostrara em Seu sermão no
monte. As coisas más do versículo 19 procedem do coração, e é significativo que
os maus pensamentos encabeçam a lista, pois é aí que todos começam. Assim o
Senhor expôs o mal que está no coração do homem.
Ele procedeu, no
caso da mulher de Canaã, para revelar a bondade que está no coração de Deus. A
graça divina estava pronta para fluir livremente sem atentar para pessoas, de
modo que os gentios, assim como os judeus, pudessem recebê-la; uma coisa só era
necessária por parte do destinatário – honestidade de coração. Agora a mulher
se dirigiu a Jesus como o Filho de Davi para apresentar seu pedido de
misericórdia. Ela veio como se fosse uma das pessoas de Israel, pensando talvez
que, ao fazê-lo, teria mais chances de ser ouvida. Houve uma medida de
insinceridade nisso e, portanto, “Ele não
lhe respondeu palavra”.
Mas embora
houvesse insinceridade, havia também uma persistência de fé tão sincera que os
discípulos intervieram por causa de seus gritos, e isso levou às palavras do
Senhor no versículo 24, que lançaram alguma luz sobre o seu erro. Ela agora
apresentou seu pedido simplesmente em razão de sua necessidade, dizendo: “Senhor, socorre-me”; e isso levou a
ainda mais palavras penetrantes do Senhor. Sua missão era na casa de Israel,
que estava espiritualmente perdida, pois afinal eles estavam no lugar dos
filhos, enquanto os gentios estavam no lugar dos cães, imundos e fora da esfera
dos tratamentos de Deus. Aqui estava uma prova de fato! Será que ela deitaria
fora o último retalho de pretensão e humildemente tomaria seu verdadeiro lugar?
Ela assim o fez
de maneira muito marcante. Sua resposta, no verso 27, efetivamente dizia: “Eu
sou realmente uma gentia, mas entre os homens há um excedente suficiente para
alimentar os cães, e tenho certeza de que o coração de Deus não é mais estreito
que o coração de homem”. Nesta resposta, Jesus instantaneamente detectou grande
fé e reconheceu-a, dando-lhe todo o seu desejo. Assim, pela segunda vez, Ele
descobriu grande fé e a salientou. Em ambos os casos – o centurião em Mateus 8,
e aqui – foram gentios que a exibiram; e em ambos os casos estava aliada à
condenação do ego. “Eu não sou digno”, disse o centurião: “Eu sou apenas um cachorrinho”,
com efeito, disse a mulher. É sempre assim: altos pensamentos de si procedem de
pouca fé e pensamentos baixos de si mesmos de grande fé. Vamos procurar e ver
se a explicação da pequenez da nossa fé está exatamente aqui.
O coração de
Deus era de fato maior do que a mulher imaginou. Ela, embora fosse um cachorrinho,
obteve uma grande migalha da mesa; mas no presente o banquete todo seria enviado
aos cães, pois esta é a força do anúncio de Paulo em Atos 28:28. Ainda assim,
muito tinha que acontecer antes que esse anúncio pudesse ser feito, e em nosso
Evangelho vemos o início da maravilhosa transição. No restante do nosso
capítulo, vemos novas manifestações marcantes do coração de Deus. A
misericórdia que abençoou uma mulher gentia estava igualmente à disposição das
multidões aflitas de Israel. A multidão teve apenas que trazer seus necessitados
e “os puseram aos pés de Jesus” para
que fossem curados de tal maneira que suas mentes fossem direcionadas para o
Deus de Israel, e eles O glorificassem.
Essa
manifestação de poder, exercida em misericórdia divina, era tão atraente que as
multidões ultrapassaram em muito seus suprimentos de alimento disponíveis e, em
sua necessidade, Jesus novamente manifestou a compaixão do coração de Deus.
Houve uma recorrência da situação registrada no capítulo anterior, e, no
entanto, aparentemente, os discípulos não esperavam que o Senhor agisse
exatamente como antes. Neles podemos ver exemplificada nossa própria falta de
fé. É comparativamente fácil lembrar como o Senhor agiu nos dias passados;
outra coisa é contar com Sua atuação hoje, na certeza de que Ele é sempre O mesmo.
Ainda assim, a falta de fé de nossa parte não é uma barreira insuperável à ação
de Sua parte. Ele novamente pegou de seus pequenos recursos e os multiplicou em
mais do que suficiente. Novamente havia comida para todos e um excedente. Tal é
a compaixão do coração de Deus.
[1]
N. do T.: Ortodoxo provém da palavra grega “orthos” que significa “reto” e
“doxa” que significa “fé”. É o que está em conforme com a doutrina tida como
verdadeira.