Este capítulo
nos traz de volta à história dos últimos dias da vida do Senhor na Terra. Pelos
versículos iniciais damos uma espiada no palácio do sumo sacerdote, e percebemos
que ele está cheio de astúcias e conselhos de homicídio. Nos versículos 6 e 13,
nos voltamos desta iniquidade mais atroz nos lugares mais elevados para
observar uma ação de amor e devoção em um lar humilde, onde moravam alguns do
remanescente piedoso. De João 12 concluímos que a mulher era Maria de Betânia.
Ela evidentemente ungiu tanto Sua cabeça como Seus pés, mas Mateus, enfatizando
Seu caráter de Rei, menciona que Sua cabeça foi ungida, como convém a um rei:
João, enfatizando Sua Deidade, nos diz que Seus pés foram ungidos, embora um
grande servo como João Batista não fosse digno de desatar Suas sandálias.
Os discípulos
estavam inteiramente fora de sintonia diante deste ato de devoção,
considerando-o como mero desperdício. A queixa deles foi instigada por Judas
Iscariotes, como o evangelho de João nos mostra, mas revelou-os como pensando
primeiro em dinheiro e depois em pobres, ignorantes e confusos quanto à Sua
morte que se aproximava. A mulher não pensava nem em dinheiro nem em pobre.
Cristo encheu sua visão e Ele soube interpretar sua ação. Muito provavelmente
ela agiu mais por instinto do que por inteligência; mas ela estava consciente
de que a morte agora ameaçava o Objeto de sua afeição e adoração, e o Senhor
aceitou o que ela fez quanto ao Seu sepultamento. Ele não somente aprovou, mas
ordenou que seu ato devotado fosse mantido em lembrança contínua onde quer que
o evangelho fosse pregado. E assim tem sido.
A devoção da
mulher se levanta no mais forte contraste possível com o ódio dos líderes
religiosos, relacionado no parágrafo anterior, e a traição de Judas,
relacionada no parágrafo seguinte. A violência atingiu seu clímax nos líderes –
eles O matariam imediatamente sem escrúpulos. A corrupção alcançou seu clímax
em Judas, que, tendo acompanhado Jesus por três anos, estava desejoso de obter
o lucro insignificante de trinta moedas de prata por sua traição. Um escravo em
Israel era estimado como valendo trinta siclos de prata, como Êxodo 21:32
mostra.
Então,
novamente, se o segundo parágrafo do nosso capítulo (vs. 6-13) nos mostra a
devoção de uma discípula ao seu Senhor, o quarto parágrafo (v. 17 em diante)
nos mostra a preocupação do Senhor por Seus discípulos, e como Ele contava com
a lembrança deles de Si mesmo durante o tempo de Sua ausência que se aproximava.
A páscoa foi
comida no lugar escolhido pelo Senhor e, ao ela acontecer, Ele identificou o
traidor e avisou-o de seu destino. A ida do Filho do Homem à morte pela traição
havia sido predita nas Escrituras Sagradas, mas isso em nada diminuía a
gravidade do ato do traidor. O fato de que Deus é onisciente e pode predizer os
atos dos homens não os isenta da responsabilidade pelo que eles fazem. Por seu
ato, Judas revelou a verdade de quem ele era. Jesus estava prestes a revelar-Se
plenamente por sua morte.
Quando a celebração
da Páscoa chegou ao fim, Jesus instituiu Sua ceia como memorial de Seu corpo entregue
e Seu sangue derramado por nós para remissão dos pecados. Nas palavras dos versículos
26-29 não há nada que definitivamente afirme que a instituição deve ser
observada até que Ele venha novamente: para isso temos que nos voltar para 1
Coríntios 11. O fato é deduzido do versículo 29, porque o cálice fala de bênção
e gozo, e do qual o Senhor beberá de uma nova maneira quando o reino chegar:
enquanto isso o cálice é para nós e não para Ele. Hoje Ele é caracterizado por
paciência: no dia do reino Ele entrará na bênção e gozo de um modo totalmente
novo. Enquanto isso, temos o memorial de Sua morte, pois nela Seu corpo e
sangue são apresentados a nós não conjuntamente, embora Ele fosse um homem vivo
na Terra, mas separadamente: este pão, Seu corpo e aquele cálice de vinho, Seu
sangue derramado; simbolizando assim a Sua morte.
A caminho do
Monte das Oliveiras, Jesus predisse como a Sua morte significaria a dispersão
deles, como as Escrituras haviam dito, mas Ele indicou-lhes a Sua ressurreição
e designou um local de encontro na Galileia, onde Ele os reuniria novamente.
Pedro, no entanto, cheio de confiança própria, resistiu à advertência para sua
própria queda, e também demonstrou a sua não percepção do fato e importância da
ressurreição. Todos os discípulos foram caracterizados pela mesma coisa, embora
não no mesmo grau.
Eles foram muito
cedo colocados em teste no Getsêmani. Ali Jesus entrou em espírito na tristeza
da morte que estava diante d’Ele, mas totalmente em comunhão com o Seu Pai. Sua
própria perfeição fez com que Ele Se afastasse de tudo o que estava envolvido
no sofrimento e da morte que o julgamento de Deus produziria; mas aceitou o
cálice da mão do Pai. Além disso, foi um tributo à perfeição de Sua Humanidade
que Ele desejasse a empatia dos discípulos escolhidos, mas a palavra profética
foi cumprida – “esperei por alguém que tivesse
compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei” (Sl
69:20). Pedro e os outros, que tinham tanta certeza de que nunca o negariam,
não puderam vigiar com Ele uma hora. A carne deles era fraca demais, mas ainda
não sabiam disso. Nem sabiam que a traição de Judas estava se concretizando, e
a crise estava sobre eles.
Mas assim foi, e
no resto deste capítulo vemos o surpreendente contraste entre o Cristo de Deus
e todos os outros que de alguma forma entraram em contato com Ele. Todos exibem
suas próprias deformidades peculiares: A única figura serena no centro da cena
é a Sua.
Primeiro vem
Judas, o traidor; mascarando sua traição com tamanha hipocrisia que dezenove
séculos depois do evento “o beijo do traidor” continua sendo uma proverbial
expressão de nojo. Na linguagem do Salmo 41:9, aqui estava “Meu próprio amigo íntimo, em quem Eu tanto confiava, que comia do Meu
pão, levantou contra Mim o seu calcanhar”. Por isso, Jesus Se dirigiu a ele
como “Amigo”, e fez-lhe a pergunta indagadora,
“a que vieste?” Ele viera para trair
o seu Mestre para poder ganhar trinta insignificantes moedas de prata.
A hipocrisia
doentia do falso discípulo é seguida pelo zelo carnal de um verdadeiro, a quem
sabemos ser Pedro pelo evangelho de João. O homem cheio de confiança própria
dorme quando deveria estar acordado, e fere quando deveria estar quieto, quando
sua ação teria sido para o descrédito de seu Mestre, caso ela não tivesse sido
anulada. Está chegando o tempo em que “os
santos” exultarão “em glória” (JND),
quando “os altos louvores a Deus”
estarão “em seus lábios” (ARA) com “espada de dois fios nas suas mãos para
tomarem vingança” (Sl 149:5-7); mas isso é no tempo do segundo Advento e
não no primeiro. A ação de Pedro estava totalmente fora de lugar e o encorajava
a um golpe de espada sobre si mesmo. Também estava inteiramente fora de
harmonia com a atitude de seu Mestre, que tinha um poder irresistível à Sua
disposição e, ainda assim, sofreu Ele mesmo como Cordeiro entregue ao
matadouro, como a Escritura havia indicado.
Quando Deus estava
para apagar de debaixo do céu as cidades da planície, Ele enviou apenas dois anjos para dar o golpe. Se doze legiões tivessem sido lançadas no
mundo rebelde, o que teria acontecido? A oração que os teria invocado não foi
proferida, e o golpe de Pedro, que atingiu tanto a ele como a seu Mestre, foi
simplesmente absurdo. Quando nos contentamos em sofrer como Cristãos, somos
espiritualmente vitoriosos; quando pegamos a espada, perdemos a batalha
espiritual e finalmente perecemos pela espada. Uma das principais razões pelas
quais a Reforma, de cinco séculos atrás, foi tão gravemente detida e
desfigurada foi que seus promotores principais tomaram da espada em sua defesa,
e assim a transformaram em um movimento nacional e político, em vez de
espiritual.
Em seguida,
vemos o Senhor lidando calmamente com a multidão que, liderada por Judas, veio
prendê-lo. Mostrou-lhes a inadequação e até a loucura de suas ações. No
entanto, na presença dela, a fortaleza de todos os discípulos desmoronou e eles
abandonaram o seu Mestre e fugiram. Assim são até mesmo os melhores dos homens!
A multidão O
entregou aos líderes de Israel, e esses homens que afirmavam representar a
Deus, haviam jogado fora qualquer pretensão de buscar justiça. Não nos é dito
que foram induzidos a erro ao aceitar
provas falsas, nem que foram tentados
a receber o erro porque foi imposto a eles. Não, nos é dito que eles “buscavam
falso testemunho contra Jesus, para poderem dar-lhe a morte”. Eles BUSCAVAM.
Já houve alguma vez, nos perguntamos, outro julgamento sobre esta Terra onde os
juízes começassem a caçar mentirosos, para que condenassem o acusado? Assim foi
aqui; e na presença disso, Jesus manteve a Sua paz. Sendo o julgamento
completamente divorciado da justiça, Ele os recebeu com uma dignidade que era divina,
e Ele somente falou para afirmar Seu “estado de ser o Cristo”[1], Sua Filiação, e
afirmar Sua glória vindoura como o Filho do Homem.
Nisto eles O
condenaram, mas o sumo sacerdote violou a lei, rasgando suas roupas ao
condená-Lo, por meio do que, apenas condenou a si mesmo. Este foi o sinal para
um pandemônio de insultos, no meio do qual estava a figura serena de nosso
Salvador e nosso Senhor. A brilhante calma de Sua presença nos ajuda a ver a tenebrosa
degradação em que se afundaram.
Por fim, neste
capítulo, Pedro colhe o que semeara em sua confiança própria. Lemos que ele “O seguiu de longe” no versículo 58,
agora o encontramos entre os inimigos de seu Senhor e incapaz de ficar em pé.
Ele prova ser fraco exatamente onde parecia ser forte, tanto quanto a
impetuosidade não é a mesma coisa que coragem. A energia carnal o impeliu a uma
posição em que ele nunca deveria ter estado, e ele caiu. Não podemos atirar
pedras nele. Em vez disso, vamos orar para que, se nos encontrarmos em uma
situação semelhante, possa nos ser concedido arrependimento semelhante ao
registrado no último verso – um arrependimento que começou assim que a queda
havia sido consumada.
[1]
N. do T.: O autor usa aqui a palavra “Christhood”
que não tem uma correspondente em português, mas cuja definição seria “o estado ou fato de ser o Cristo”.