Os fariseus
renovaram seu ataque, ajuntando-se com seus antigos inimigos, os saduceus, para
esse fim. O “sinal do céu” era
apenas um gancho, sendo exatamente o tipo de coisa que os saduceus, com suas
noções materialistas, nunca aceitariam. Em resposta, o Senhor salientou que
eles eram bons juízes das coisas materiais ao contemplarem a face do céu, mas totalmente cegos quanto aos
“sinais dos tempos”, que precisam de
discernimento espiritual para sua apreensão. Sendo “maus e adúlteros”, eles não tinham percepção espiritual e,
portanto, tais sinais, como Deus lhes dava, não eram úteis para eles. Como Ele
havia dito antes (Mt 12:39), permaneceu “o
sinal do profeta Jonas”, a saber, Sua própria morte e ressurreição. Com
essa palavra ele os deixou. Quando esse grande sinal ocorreu, eles usaram toda
a sua astúcia e seu dinheiro num esforço para anulá-lo; como vemos no último
capítulo deste Evangelho.
O Senhor deixou
esses homens e voltou-Se para Seus discípulos com palavras de advertência. Eles
deviam tomar cuidado com o “fermento dos
fariseus e dos saduceus”. Os discípulos, a princípio, entenderam esse aviso
num sentido material, cujo mal-entendido estava sendo ajudado pela sua omissão
de tomar pão consigo. No entanto, eles não deveriam ter pensado dessa maneira
tendo em vista a alimentação dos cinco mil e dos quatro mil. Por fim,
entenderam que, com o “fermento”, o
Senhor queria dizer “doutrina”. É
evidente, portanto, que, embora o verdadeiro discípulo jamais pudesse ser
fariseu ou saduceu, ele pode ser levedado por suas doutrinas – por um ou por
ambos.
O fermento do
fariseu era esse tipo de hipocrisia religiosa que coloca toda a ênfase nas
coisas externas e cerimoniais. O fermento dos saduceus era o orgulho do
intelecto que eleva a razão humana ao lugar de único juiz, e deixa de lado a
revelação de Deus e a fé. O quanto a Cristandade está fermentada por essas duas
coisas é tristemente perceptível hoje. O ritualismo desenfreado por um lado, e
o racionalismo, ou “modernismo”, por outro, e não é raro que ambos sejam
misturados e o ritualismo racionalista seja o produto. A advertência do Senhor
contra eles é complementada pelo apóstolo Paulo em Colossenses 2. No versículo
8 desse capítulo, encontramos sua advertência contra o racionalismo, e nos
versículos 16, 18, 20-22, contra o ritualismo em várias formas, e ficamos
sabendo como essas coisas nos desviam de Cristo e nos impedem de “reter a Cabeça”.
É significativo
que em nosso capítulo a advertência do Senhor contra ambos venha logo antes do
registro de Sua visita a Cesareia de Filipe, e da questão que Ele levantou com
Seus discípulos ali. Neste lugar Ele estava no limite extremo do norte da terra,
e tão longe dos efeitos desses homens quanto possível. Quem era Ele? Essa foi a
questão suprema. As respostas dadas pelo povo eram várias e confusas, e não
estavam suficientemente interessado em fazer uma investigação sóbria. Mas
apelando mais diretamente a Seus discípulos, Pedro foi capaz, sendo ensinado
por Deus, a dar uma resposta clara, que trouxe à luz a Rocha sobre a qual a Igreja
seria construída. Colossenses 2 nos mostra quão destrutivo é o fermento, tanto
do fariseu quanto do saduceu, sobre a posição da Igreja e a fé. Em Mateus 16,
vemos como o Senhor advertiu Seus discípulos contra ambos antes de fazer o
primeiro anúncio da Igreja que Ele iria construir.
Simão Pedro foi
um homem abençoado. Do próprio Deus no céu, de Quem Jesus falou como “Meu Pai”, havia chegado a ele uma
revelação que nunca poderia ter vindo do homem. Seus olhos foram abertos para
ver em Jesus, o Cristo. Essa era Sua posição oficial como o Ungido de Deus. Mas
Quem era esse Ungido? Pedro discerniu que Ele era “o Filho do Deus vivo”. Esta foi verdadeiramente uma confissão
impressionante. Deus é o Deus vivo, infinitamente acima do poder da morte.
Jesus é o Filho na eterna Divindade, igualmente acima de todo o poder da morte.
Esse fato evidentemente chegou a Pedro como num lampejo por revelação divina.
Ele ainda não estava estabelecido no pleno entendimento disso, como vemos meia
dúzia de versículos mais abaixo. No entanto, ele viu que aquilo era assim e o confessou.
Nós confessamos
isso também? E realmente entendemos seu significado? Se o entendermos, de fato
encontramos uma Rocha inexpugnável[1] e, como Pedro,
somos realmente abençoados.
Em Sua palavra a
Pedro, registrada no versículo 18, o Senhor confirmou o nome que Ele havia dado
a ele em Seu primeiro encontro, conforme registrado em João 1:42, e também
revelou algo mais de seu significado. O significado de “Pedro” é “pedra”, mas
qual é a sua significância? Isso – que ela o conectou com a Igreja que Cristo,
o Filho do Deus vivo, estava prestes a construir. Assim, em Cristo mesmo, está
a “Rocha”, sobre a qual a Igreja é
fundada. Pedro não era rocha. De fato, ele parece ter sido o mais impulsivo e
facilmente comovido dos discípulos – veja Gálatas 2:11-13. Ele era apenas uma
pedra, e não há desculpa para o erro de confundi-lo com a Rocha, pois em Seu
uso das palavras, o Senhor assinalou a distinção, dizendo: “Tu és Petros, e sobre esta Petra edificarei a Minha Igreja”.
A construção da Igreja
ainda estava no futuro, pois a Rocha não foi totalmente revelada até que o
Filho do Deus vivo tenha provado o Seu triunfo por meio da morte e
ressurreição, e subido ao alto. Então começou a ekklesia de Cristo, ou “companhia
chamada para fora”, e aqui foi encontrada uma das pedras que seriam então
construídas sobre a Rocha. Em sua primeira epístola, Pedro nos mostra que isso
não é algo confinado exclusivamente a si mesmo, pois todos os que vêm à Pedra
Viva são pedras vivas a serem construídas também sobre esse Fundamento.
Neste grande
pronunciamento, o Senhor falou de Sua Igreja como sendo obra de Sua própria manufatura,
contra a qual toda sabedoria e poder contrários não poderiam prevalecer. Nada
pode tocar o que é feito no poder da vida divina. Outras escrituras falam da Igreja
como a comunidade que professa fidelidade a Cristo, trazida à existência pelos
trabalhos daqueles que tomam o lugar de servos de Deus. Sobre essa comunidade,
o fracasso foi estampado desde o início e se misturou com o reino dos céus, do
qual aprendemos muito em Mateus 13, e que o Senhor menciona no verso 19 de
nosso capítulo. As chaves desse reino foram dadas a Pedro – não as chaves da Igreja.
Todos os que
professam lealdade ao Rei estão no reino dos céus, e Pedro recebeu um lugar
administrativo especial em conexão com isso. Nós o vemos no ato de “ligar” em relação aos judeus em Atos
2:37-40, e em relação aos gentios em Atos 10:44-48; e no ato de “desligar” em Atos 8:20-23. E nesses
casos, claramente, seus atos foram ratificados no céu. Mas Simão, o mágico,
embora tivesse sido batizado como professo súdito do reino, nunca fora
edificado pelo Senhor em Sua igreja.
O reino dos céus
havia sido revelado nas escrituras do Velho Testamento, embora não na sua forma
misteriosa atual. Por outro lado, nada havia sido dito sobre a Igreja, e essa
palavra de Jesus foi uma revelação preliminar dela. Tendo feito o anúncio, Ele
imediatamente retirou o testemunho que Seus discípulos haviam dado a Seu respeito
de ser o Cristo, vindo à Terra para confirmar as promessas feitas aos pais (Rm
15:8). Sua rejeição era certa e Sua morte iminente. Somente assim haveria a
base apropriada para o cumprimento das promessas a Israel, ou a bênção dos
gentios para que eles pudessem glorificar a Deus por Sua misericórdia em
trazê-los para a Igreja. Por isso, a partir desse ponto, Jesus levou a mente de
Seus discípulos à Sua morte e ressurreição – o grande clímax de Sua história
terrena. Cristo em glória ressurreta, em vez de Cristo em glória terrena, era o
objetivo diante deles.
Aqui Pedro manifesta
seu caráter frágil e instável, e é repreendido. É impressionante como nesses
poucos versículos o vemos divinamente iluminado, depois administrativamente
privilegiado e depois falando de uma forma que lembrou a nosso Senhor de
Satanás e dos homens caídos. Tal era Pedro e não somos melhores do que ele. Sua
mente e as mentes dos outros discípulos estavam assentadas em bênçãos para
serem realizadas na Terra. O Senhor sabia disso e passou a dizer-lhes como tudo
seria alterado para eles por Sua morte: eles também teriam a morte trazida
sobre eles e perderiam suas vidas neste mundo.
Estas palavras
do nosso Senhor (v. 25) ocorrem não menos que seis vezes nos quatro evangelhos,
com pequenas variações na redação: duas vezes neste evangelho, duas vezes em
Lucas e uma vez em Marcos e uma em João. As seis ocorrências abrangem,
acreditamos, quatro ocasiões diferentes. Assim, evidentemente, era um ditado
frequentemente nos lábios de Jesus; e isso atesta a sua grande importância. Isso
é “corte contra a fibra” com cada um de nós e, ainda assim, coloca em poucas
palavras um grande princípio de vida espiritual que persiste durante todo o
período de Sua rejeição e ausência do mundo. Somente quando Ele vier novamente,
os santos irão gozar a vida na Terra em um sentido completo e apropriado.
Entrar para ganhar o mundo agora é perder a alma.
Tendo mostrado a
Seus discípulos o que estava diante de Si mesmo e diante deles num futuro mais
imediato, Ele prosseguiu falando de Sua vinda em glória. Ele então receberá o
reino de Seu Pai e o tempo de recompensa terá chegado, e alguns deles teriam o
privilégio de ver, numa pequena escala, o reino como uma amostra do que estava
por vir. Esta foi uma expressão de Sua graça que se ocupava com eles, a fim de
que não ficassem totalmente desanimados com o que Ele acabara de lhes dizer.
[1] Impossível de ser vencido ou
conquistado. Inatacável e insuperável.