“Naquele tempo”,
diz o verso de abertura, Herodes “ouviu
a fama de Jesus” (AIBB). Apenas quando Ele não tinha fama em Nazaré, Sua fama
chegou aos ouvidos daquele homem ímpio e, ao que parece, tocou sua consciência
endurecida. É notável que ele tenha pensado que foi João ressuscitado dentre os
mortos, já que, para um Herodes posterior, temos Paulo dizendo: “Por que é que se julga entre vós incrível
que Deus ressuscite os mortos?” (Atos 26:8 – AIBB). Aquilo em que não
podiam acreditar quando aconteceu, foi cobrado solenemente por uma consciência
culpada.
Isso leva Mateus
a nos contar a história do martírio de João, que aconteceu pouco antes. O fiel
testemunho de João havia provocado a ira de Herodes e a vingança de Herodíades,
e o precursor do Senhor morreu em consequência de um ímpio juramento. Herodes afrontou
a lei de Deus a fim de preservar o crédito de sua própria palavra. Tal era o
homem que governava muitos dos judeus – um castigo certamente pelo abundante pecado
deles.
Ora, João sempre
havia apontado fielmente a Jesus, e as pessoas reconheceram que, embora João
não fizesse nenhum milagre, “tudo quanto
João disse d’Este era verdade” (João 10:41). Como fruto da feliz fidelidade
de João a Jesus, seus discípulos sabiam o que fazer, quando ele foi tão
subitamente removido. Seu corpo foi dado a eles e, tendo o sepultado, eles “foram anunciá-lo a Jesus”. João era a
lâmpada ardente e brilhante, enquanto que Jesus era a luz, que veio ao mundo, e
brilhava para todos os homens. A lâmpada foi apagada, então eles se voltaram
para a grande Luz, onde encontraram consolo.
Ouvindo isso,
Jesus partiu para um lugar deserto. Marcos nos mostra que, exatamente nesse
tempo, Seus discípulos haviam retornado para Ele de sua missão. Um tempo de
solidão e quietude era adequado neste momento para o Mestre, para Seus
discípulos e para os entristecidos seguidores de João; se, como é provável,
eles O acompanharam.
As multidões,
porém, ainda O seguiu, e Ele satisfez suas necessidades. Como sempre, Ele foi
movido de compaixão. A indiferença de Nazaré e a maldade de Herodes não
produziram nenhuma mudança n’Ele. Meditemos longa e profundamente nas imutáveis
compaixões do coração de Cristo. Bendito seja o Seu nome!
Não foi o
Senhor, mas Seus discípulos, que sugeriram que as multidões deveriam ser despedidas
para se proverem por si mesmas. Foi Sua compaixão que os deteve e ordenou que
Seus discípulos dessem a eles de comer. Isso testou os discípulos e trouxe à
luz quão pouco eles percebiam o poder de seu Mestre. Eles tinham que descobrir
que a Sua maneira era usar os ínfimos recursos que já estavam em suas mãos e
multiplicá-los até que fossem mais do que suficientes. O profeta indicou que
Jeová encontraria Seu descanso em Sião e que, então, Sua palavra seria: “Abençoarei abundantemente o seu
mantimento; fartarei de pão os seus necessitados” (Sl 132:15). Jeová estava
agora entre o Seu povo na Pessoa de Jesus, e embora não houvesse descanso para
Ele em Sião naquele tempo, ainda assim Ele provou o que poderia fazer com esses
cinco mil homens, além de mulheres e crianças. Ele estava dispensando a
generosidade do céu, porquanto Ele olhava acima para o céu enquanto abençoava.
Neste ponto,
recordemos da situação apresentada neste Evangelho. Ele havia sido
definitivamente rejeitado pela nação, seus líderes indo tão longe a ponto de
cometer o pecado imperdoável de atribuir Suas obras de poder ao diabo.
Consequentemente, Ele havia simbolicamente quebrado Seus laços com eles. Isso
vimos em Mateus 11 e 12. Então, em Mateus 13 Ele falou as parábolas que revelam
novos desenvolvimentos
quanto ao reino dos céus; e no final daquele capítulo descobrimos que o povo de
Sua própria terra nada viu n’Ele além do filho do carpinteiro. Abrimos o
capítulo 14 para encontrar Herodes matando Seu precursor, para que Sua rejeição
por todas as mãos dificilmente pudesse ser mais completa. No entanto, antes de
encerrarmos o capítulo, vemos uma exibição de dois grandes fatos: primeiro, Ele é mais que Suficiente quando
na presença da necessidade humana, sejam as necessidades da multidão ou a
fraqueza dos discípulos. Em segundo
lugar, Ele é mais do que Supremo quando confrontado com os poderes exercidos
pelo adversário. Ele não apenas andou sobre as águas tempestuosas, mas permitiu
que um frágil discípulo fizesse o mesmo.
Durante a noite,
estivera em oração na montanha e os discípulos haviam lutado contra
circunstâncias contrárias. “Ao
anoitecer” (AIBB) Ele Se aproximou deles, andando sobre as ondas. No
episódio anterior no lago (Mt 8), Ele havia Se mostrado capaz de reprimir a
tempestade, já que Seu poder estava acima de todo o poder do diabo. Agora Ele
Se mostra em absoluta supremacia. A tempestade não era simplesmente nada para Ele.
Foi angustiante para os discípulos, mas aqui estava aqu’Ele de Quem se tinha
sido dito: “Pelo mar foi Teu caminho, e
Tuas veredas pelas grandes águas; e as Tuas pegadas não se conheceram” (Sl
77:19). Sua presença trouxe bom ânimo para eles, mesmo enquanto a tempestade
ainda se enfurecia; e quando Ele Se juntou ao barco, o vento cessou.
Mas o Senhor
trouxe Consigo mais do que bom ânimo, e Pedro foi quem descobriu isso: Ele pode
conformar os outros a Si mesmo. Isso requeria que Pedro “descesse do barco”, e isso só poderia ser feito quando Pedro tivesse
a palavra de autoridade “Vem”, que
autenticou o fato de que era o próprio Senhor que Se aproximava. Assegurado de
que era Ele mesmo, sob a força de Sua palavra, Pedro deu um passo à frente e
caminhou sobre as águas. Podemos ver aqui uma alegoria do que em breve
aconteceria. O sistema judaico, que consistia basicamente da “a lei dos mandamentos, que consistia em
ordenanças” (Ef 2:15), era como um barco, bastante adequado para os homens
que são “segundo a carne”. Como
resultado de Sua vinda, os discípulos deveriam sair desse “barco” para um caminho de pura fé. Por isso, quando Paulo se
despediu dos anciãos de Éfeso, ele não os recomendou a um código de leis nem a
uma instituição ou organização, mas a “Deus
e à Palavra da Sua graça”. Daí também o chamado para sair “fora do arraial” em Hebreus 13. Pedro
estava fora “do barco”, com Cristo
como seu Objeto e Sua Palavra como sua autoridade. A posição Cristã é fora do arraial
com Deus e com a Palavra da Sua graça.
No entanto, a fé
de Pedro era pequena e, quando sua mente se desviou do seu Mestre para o vento
violento, ficou com medo e começou a afundar. Mas ainda ele tinha fé, pois na
emergência ele imediatamente chamou seu Senhor, e assim foi sustentado, e ambos
juntos alcançaram o barco, quando então o vento cessou imediatamente, e a terra
foi alcançada, como nos mostra o Evangelho de João. Pedro era bastante ilógico
em seus temores, pois não é mais possível caminharmos sobre águas tranquilas do
que em águas turbulentas, mas somos todos como ele quando a pouca fé invade
nossos corações. A fé que é totalmente centrada em Cristo é forte, enquanto a
que é ocupada com as circunstâncias é fraca.
Às vezes ouvimos
muito sobre a falha de Pedro, e não o suficiente do que o poder de Cristo
permitiu que ele fizesse, embora sua fé fosse pequena. Afinal, ele não afundou.
Ele apenas começou a afundar e então, sustentado por um poder que não era seu,
chegou ao seu Senhor e retornou com Ele ao barco. Nenhum outro homem fez uma
coisa como essa, e seu fracasso momentâneo apenas tornou manifesto que o poder
que o sustentava era o de seu Senhor, que todos os outros O adoravam como o
Filho de Deus. Eles tiveram um grande vislumbre de Sua glória, e quando
chegaram à terra de Genesaré, o tributo foi pago pelo povo à Sua graça, bem
como ao Seu poder. Os enfermos reuniram-se em Sua presença, e a fé deles não
foi frustrada, pois todos quantos O tocaram foram perfeitamente curados. A
verdadeira cura divina significa 100% de cura em 100% dos casos! Um estado de
coisas perfeitamente maravilhoso!