Este capítulo se
inicia com o fato de que Ele agiu adequando Suas ações às Suas palavras. Deixou
os estreitos limites da casa e partiu para o ar livre e para o mar – o mar
sendo uma figura das nações. Ali Ele começou a ensinar a multidão de um barco,
usando parábolas como método. Este capítulo contém sete parábolas. Começaremos notando uma expressão que Ele usou no
versículo 52, “coisas novas e velhas”,
pois isso nos ajudará quanto ao desvio das parábolas. As coisas antigas são mencionadas, o reino
dos céus, por exemplo, que foi predito em Daniel, mas as coisas novas
predominam. Vamos apontar quatro
coisas novas antes de olhar as parábolas em detalhes. Primeiro, ele adotou um novo método de ensino – as parábolas. O
novo método intrigou os discípulos, como mostra o versículo 10. Segundo, Ele indicou na primeira
parábola um novo método de trabalho divino. Em vez de esperar pelos frutos como
a produção da lavoura de Deus por meio da lei e dos profetas, Ele iria semear a
Palavra para produzir frutos. Terceiro,
Ele torna conhecidos desdobramentos que dão um novo significado ao termo “reino dos céus”. Quarto, Ele profere novas revelações, abrindo Sua boca para
proferir “coisas ocultas desde a criação
do mundo”, como diz o versículo 35.
A primeira
parábola se mantém por si mesma e, a não ser que a entendamos, não entenderemos
as outras. A grande obra agora era a semeadura da “palavra do reino” nos corações dos homens. Isso não concede nenhum
lugar especial ao judeu. No versículo 19, Jesus disse: “Ouvindo alguém”, abrindo assim a porta para cada ouvinte da
palavra, seja ele quem for. O que era necessário era ouvir com entendimento.
Militando contra isso estão as atividades do diabo, a inconstância da carne,
e os cuidados e riquezas do mundo.
Mas a palavra é recebida por alguns e frutos são produzidos em medidas
variadas. Este método de trabalho divino ainda é usado. Ele caracteriza o dia
em que vivemos. O Cristianismo não se baseia no que encontra no homem, mas
naquilo que produz pelo poder de Deus.
Os discípulos
ficaram confusos com a mudança para parábolas. Sua indagação fez com que o
Senhor desvendasse o fato de que Ele adotou esse modo de ensino para que os
mistérios ou segredos do reino dos céus pudessem ser ocultados da massa
incrédula e revelados somente àqueles que cressem. Aqueles que em incredulidade
tinha rejeitado o Senhor, fecharam seus olhos para a verdade. Agora Ele falou
em parábolas para que eles pudessem ser deixados em sua incredulidade. Assim, a
profecia de Isaías deveria ser cumprida neles. A mesma profecia é citada por
João em seu evangelho – João 12:40. É citada também por Paulo pela terceira e
última vez no capítulo final de Atos. Foi apenas a ação do governo de Deus.
Para os crentes, as parábolas são muito instrutivas e, como diz o versículo 17,
elas ajudaram a trazer ao conhecimento dos discípulos as coisas desejadas, mas
nunca vistas, pelos profetas e os justos dos dias antigos.
Até mesmo os
discípulos precisavam da explicação que o Senhor deu para entender a parábola
do semeador; e, sendo ela explicada a eles, Jesus passou a proferir mais três
parábolas aos ouvidos da multidão. Somente quando a multidão foi despedida e
Ele se retirou para uma casa com Seus discípulos Ele proveu a explicação da
segunda parábola. É evidente, portanto, que as quatro primeiras foram proferidas
em público e tratam das manifestações
exteriores do reino; enquanto as três últimas foram proferidas em particular e tratam com sua realidade
interna e mais oculta.
A primeira parábola, como indicamos, nos
dá a chave para todas as outras; mostrando-nos que o reino deve ser
estabelecido como o resultado da semeadura da “palavra do reino”, e não como o fruto da obediência à existente lei
de Moisés. Com este fato estabelecido, todas as outras parábolas nos dizem como
é o reino dos céus, e cada uma dessas seis semelhanças apresenta
características que não poderiam ter sido previstas à luz das escrituras do Velho
Testamento. Nelas o reino em sua glória havia sido previsto, mas aqui o vemos
assumindo um novo caráter, no qual existirá antes que a glória se apresente.
A segunda parábola, a do trigo e do joio,
mostra que, enquanto o reino existe pela da semeadura da boa semente pelo Filho
do Homem, o diabo também será um semeador e seus filhos serão encontrados entre
os filhos do reino. Isso estabelece o fato de que até a hora do julgamento
chegar, quando o Filho do homem purificará o Seu reino de todo o mal, haverá, resumindo,
mistura. Nessa parábola, lembre-se: “o campo
é o mundo” (v. 38). Então não há
aqui o pensamento de a Igreja ser um lugar onde os filhos do maligno precisam
ser tolerados. “O reino” indica uma
esfera mais ampla do que “a Igreja”,
e não há possibilidade de desemaranhar as coisas no mundo até que o Senhor
venha. Então, pelo serviço dos anjos no final da época, o mal será lançado no fogo.
O trigo deve ser
reunido no celeiro. Em Sua explicação, o Senhor vai além e fala do justo
resplandecendo como o Sol no reino de Seu Pai. Ao usar essa figura, o Senhor
coloca os santos em uma posição celestial, de modo que não nos surpreendemos
quando mais tarde encontrarmos o chamado celestial plenamente revelado. É
interessante notar o Senhor falando nesta parábola do “reino dos céus”, do “reino
do Filho do Homem” e do “reino de Seu
Pai”, mostrando que o reino é um, por mais maneiras que possa seja
designado. No entanto, existem departamentos diferentes – se assim podemos
falar – e, portanto, podem ser vistos de maneiras diferentes.
A terceira parábola, a do grão de
mostarda, mostra que o reino será marcado pelo desenvolvimento. Ele crescerá e
se tornará imponente diante dos olhos dos homens, mas se tornará um abrigo para
os agentes do mal – pois na primeira parábola, ao explicar “as aves”, o Senhor disse: “vem
o maligno”; e sabemos como Satanás trabalha por meio de agentes humanos.
A quarta parábola, contida em apenas um
versículo (v. 33), mostra que, como poderíamos esperar do que acabamos de ver,
o reino será gradualmente permeado pela corrupção. Na Escritura, o fermento é consistentemente
usado como uma figura daquilo que corrompe. Esta é uma das passagens onde
alguns estão desejosos de fazê-la significar aquilo que é bom. Mas isso é
porque eles têm um sistema de interpretação que exige tal significado. O
evangelho, eles pensam, vai permear o mundo com o bem. Essa súbita quebra do
significado do fermento deveria tê-los chamado atenção de que seus pensamentos,
que exigiam tal interpretação, estavam incorretos.
Aqui, então, o
Senhor está nos ensinando que o reino, como visto pelo homem, será de tal forma
que é marcado pela mistura, pelo seu desenvolvimento em uma instituição
imponente na Terra, onde os agentes do mal encontrarão um lar e, consequentemente,
haverá um processo de infiltração do mal. Ele falou como um Profeta de fato,
pois exatamente o que Ele previu aconteceu naquela esfera na Terra, onde professamente
o domínio do céus é reconhecido.
Mas na
privacidade da casa, o Senhor acrescentou aos Seus discípulos mais três
parábolas. Aqui nós temos o reino do ponto de vista divino, e se nossos olhos estão
ungidos também veremos nele o que Deus vê. Na quinta parábola, veremos que há algo de valor oculto. O “campo” aqui ainda é o mundo, e o
Senhor o comprou, com o objetivo de assegurar o tesouro escondido nele. Essa compra deve ser distinguida da redenção, pois os homens maus podem ir
tão longe “negando até ao Senhor que os
comprou” (2 Pe 2:1 – TB). Eles foram comprados, mas não redimidos, senão
eles não iriam para “repentina
destruição”. O reino está estabelecido para que o tesouro escondido no
mundo possa ser assegurado.
Novamente, na sexta parábola, fala da pérola de grande
valor. No reino, como existe hoje, deve ser encontrado e comprado este objeto,
marcado no olho Divino por uma perfeição única. Aqui, sem dúvida, temos em
figura aquilo que o Senhor falará em Mateus 16, como “Minha Igreja”. É verdade que Ele comprou o campo, mas também
comprou a pérola e, em ambos os casos, representa a Si mesmo vendendo tudo o
que tem para comprá-los. Ele entregou tudo para alcançar Seu objetivo, no
espírito de 2 Coríntios 8:9. Não podemos comprar Cristo pela venda de toda nossa
indignidade. É o que Ele fez por nós. É o que Ele ganhará por meio do reino dos
céus em sua presente forma misteriosa.
Por fim, a sétima parábola é a rede de arrastar que
coleta peixes do mar das nações. Todos os tipos são reunidos, mas vemos a
seleção discriminada exercida. Há uma semelhança entre esta e a parábola do
trigo e do joio, visto que em ambos os casos há um desemaranhamento realizado
pelos anjos no final da época. Os ímpios são separados dos justos e lançados na
fornalha de fogo. Mas há também uma clara diferença, pois na primeira parábola
os iníquos estão no mundo como resultado da semeadura de Satanás; enquanto nesta
parábola “a palavra do reino” sai
entre as nações como uma rede, e pessoas de todos os tipos professam recebê-la.
No final da época, a discriminação será feita; os verdadeiros eleitos de Deus
serão reunidos e o mal será rejeitado.
Quão importante
é que mantenhamos diante de nós como é o reino do ponto de vista Divino. Ele assumiu
esse caráter peculiar como resultado da rejeição do verdadeiro Filho de Davi e de
Sua consequente ausência nos céus. Apesar da mistura e da corrupção que
marcarão exteriormente o reino, haverá esta obra interior de Deus que resultará
em Sua obtenção do tesouro escondido, a pérola de grande preço, e todo os bons
peixes que a rede carrega. Temos entendido todas essas coisas? Os discípulos
sentiram que eles entenderam, mais tarde, quando receberam o Espírito, podem
ter descoberto quão pouco o haviam percebido. Nós também percebemos quão pouco
o temos percebido, pois o reino em sua forma atual não é entendido tão
facilmente como será quando for revelado em manifestação pública. As coisas que
são totalmente novas, do ponto de vista do Velho Testamento, predominam:
portanto, lemos “coisas novas e velhas”,
não “velhas e novas”. A ênfase está
em “novas”.
Este capítulo
termina com Jesus de volta à Sua própria terra, e lá naquele tempo eles eram
incrédulos. Eles não viram Emanuel n’Ele, nem mesmo o Filho de Abraão, o Filho
de Davi; para eles era apenas o filho do carpinteiro, com cujas relações eles
eram muito familiares. Sua familiaridade incrédula fez com que eles tropeçassem
n’Ele. Seu poder era inabalável, mas a incredulidade deles impôs uma restrição
ao exercício de Seu poder, assim como a incredulidade de Joás, o rei de Israel,
impôs um limite às suas vitórias (veja 2 Rs 13:14-19).