Este capítulo
abre com a parábola do pai de família e seus trabalhadores, a qual no verso 16
nos traz de volta com uma convicção nova exatamente para esse ponto. A parábola
também tem referência direta à pergunta de Pedro, que pediu uma promessa exata
de recompensa, uma vez que ela destaca a diferença de tratamento dispensado
pelo pai de família entre aqueles que o serviram como consequência de um acordo,
e aqueles que o fizeram sem qualquer ajuste, mas com a simples confiança de que
ele lhes daria “o que for justo”.
Todos podemos bem entender os sentimentos daqueles primeiros trabalhadores, e a
queixa de injusto tratamento que eles apresentaram, uma vez que eles tinham
suportado o fardo e o calor do dia. Que trabalhador existe que não estaria
inclinado a raciocinar da mesma maneira que eles fizeram? Mas o “pai de família” atribuiu grande valor
a essa confiança na retidão de sua mente e fé em sua palavra, que caracterizou
os que chegaram por último. Ele tinha o direito de fazer o que quisesse com seu
próprio dinheiro, e tão altamente ele avaliava a fé que ele deu aos últimos
exatamente o que ele deu aos primeiros. E na distribuição do dinheiro ele
começou pelos últimos. Assim, os últimos foram os primeiros e os primeiros
foram os últimos.
Aqui, então, é
uma lição que todos levamos muito tempo para aprender. O Senhor não subestimará
o trabalho, mas Ele valorizará ainda mais a fé simples em Si mesmo, em Sua
retidão, em Sua sabedoria, em Sua Palavra, que continuará servindo a Ele, mesmo
que até tarde do dia, sem muita consideração quanto à recompensa, ou qualquer
tentativa de acordo. A fé e o amor que moveriam alguém para servi-Lo dessa
maneira é mais doce para Ele do que o verdadeiro trabalho que elpudessem
realizar. Vamos ganhar se lermos, marcarmos, aprendermos e digerirmos
interiormente essa parábola.
Jesus estava
agora em Seu caminho à Jerusalém pela última vez, e Ele mais uma vez pressionou
os discípulos com Sua morte e ressurreição que se aproximavam. No que diz
respeito ao registro deste evangelho, esta é a quarta vez que Ele o fez desde Seu
grande prenúncio de edificar Sua Igreja, em Mateus 16. Aqui há uma riqueza de
detalhes em poucas palavras. Ele prediz Sua traição por Judas, Sua condenação
pelo Sinédrio, Sua entrega por eles a
Pilatos e seus soldados, o escárnio, os açoites, a crucificação e finalmente Sua
ressurreição – tudo contido em dois versículos.
No entanto, as
mentes dos discípulos ainda estavam cheias de antecipação do breve
estabelecimento do reino; Tanto que Tiago e João foram trazidos por sua mãe com
um pedido de lugares de proeminência no reino. Jesus respondeu com uma pergunta
que indicava que a honra no reino vindouro será proporcional à medida que
alguém tiver se identificado com Ele em Seus sofrimentos e rejeição. Ao mesmo
tempo, Ele mostrou que as recompensas no reino seriam dadas de acordo com a
avaliação do Pai. O próprio Filho do Homem vai receber o reino das mãos do Pai,
como havia sido indicado no Salmo 8 e em Daniel 7, de modo que os santos também
receberão seu lugar no reino das mãos do Pai. A lembrança disso nos ajudará a
entender o Senhor dizendo que a recompensa “não
Me pertence dá-la”.
Este é o único
caso, tanto quanto nos lembramos, onde um dos pais veio ao Senhor com um pedido
para seu filho e encontrou uma recusa. Mas então a mãe estava pedindo um lugar
proeminente como recompensa: em todos os outros casos, o pedido era por bênção
de Suas mãos. Isso nunca foi negado. Havia evidentemente um espírito de
competição entre os discípulos, pois os dez sentiram que os dois tinham os
deixado para trás e ficaram indignados. Isso levou a mais uma bela lição quanto
à humildade que convém ao reino. Ainda hoje somos muito lentos em reconhecer
que os princípios que prevalecem no reino divino são o oposto daqueles que
prevalecem nos reinos dos homens. No mundo, a grandeza é expressa em domínio e
autoridade: o grande está em posição de domínio sobre seus semelhantes. Entre
os santos, a grandeza se expressa no ministério e serviço. A palavra para
ministro no versículo 26 é “diakonos”
e que para servo no versículo 27 é “doulos”
(escravo); a palavra a qual Paulo usa para Timóteo e para ele mesmo no
versículo de abertura da epístola aos Filipenses. Paulo era preeminentemente um
servo de Jesus Cristo, e ele não será achado pequeno quando medido pelo padrão
que prevalece no reino dos céus.
Por outro lado,
havia nos dias de Paulo homens que visavam o domínio e a autoridade, trazendo
os crentes sob servidão, devorando-os, despojando-os, exaltando-se e ferindo os
outros no rosto. Mas tais eram falsos apóstolos e obreiros fraudulentos – veja
2 Coríntios 11:13-20. Há pessoas em nossos dias que impõem seu domínio da mesma
forma, e fazemos bem em tomar cuidado com elas. O Senhor coloca-Se diante de
nós como o Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir,
embora ser servido fosse Seu direito. Daniel 7:9-14 mostra isso de duas
maneiras, pois Jesus pode ser identificado como o “Ancião de dias”, e também como o Filho do Homem. Como o Ancião de dias
“milhares de milhares O serviam”
antes que Ele descesse entre nós. Como Filho do Homem, “todos os povos, nações e línguas” O “servirão”. Contudo, entre isso veio o tempo de Sua humilhação,
quando Ele Se dedicou ao serviço; que foi ao ponto extremo de dar a Sua vida em
resgate por muitos. Assim, pela quinta vez desde o capítulo 16, o Senhor colocou
Sua morte diante das mentes de Seus discípulos; e desta vez Ele falou de sua
virtude redentora. Graças a Deus que estamos entre os “muitos”!
As cenas finais
do evangelho começam com o incidente concernente aos dois cegos quando Ele
partiu de Jericó. Tanto Marcos como Lucas mencionam apenas um deles, cujo nome
era Bartimeu, mas, evidentemente, haviam dois. A mesma característica é vista
nos relatos da expulsão da legião de demônios, pois no final de Mateus 8 nos
fala de dois homens, onde Marcos e Lucas mencionam apenas um. Em ambos os
casos, houve duas testemunhas do poder e da graça de Jesus, e Mateus menciona
isso, uma vez que seria especialmente impressionante para os leitores judeus,
acostumados à estipulação de sua lei quanto à validade do testemunho de duas
pessoas, enquanto o de uma só poderia ser desconsiderado.
O Filho de Davi
estava agora pela última vez Se aproximando de Sua cidade principal. Esses
homens tinham fé suficiente para reconhecê-Lo e receberam d’Ele a visão física
que desejavam. Com os olhos abertos eles se tornaram Seus seguidores. Isto certamente
simbolizava a necessidade espiritual das massas de Israel. Se apenas seus olhos
estivessem realmente abertos, eles teriam visto o seu Messias em Jesus no dia
de sua visitação. A situação hoje é semelhante. As pessoas costumam reclamar de
falta de luz. O que eles realmente necessitam é a visão espiritual – isto é, a
fé – que lhes permitiria ver a luz, que brilhou tão intensamente n’Ele.