No final do
capítulo anterior, o Senhor disse a Seus discípulos que orassem pelo envio de
trabalhadores. Este capítulo começa com Seu chamado aos doze e os comissionando
a sair. Eles mesmos deveriam ser a resposta para a oração deles! Não é raro que
esse seja o caso. Quando oramos para que isto ou aquilo seja feito no serviço
do Senhor, muitas vezes Sua resposta para nós seria, com efeito: “Então vocês
são os que devem fazê-lo”. Agora, para qualquer comissão ser eficaz, deve haver
as pessoas selecionadas, o poder conferido e o procedimento correto indicado.
Este capítulo
está ocupado exatamente com estas três coisas. Nos versículos 24, temos os
nomes dos doze discípulos escolhidos; e no versículo 1 lemos como Jesus
conferiu o poder necessário sobre eles. Este poder era eficaz em duas esferas,
a espiritual e a física. Espíritos imundos tinham que obedecê-los, e todos os tipos
de males corporais desapareciam diante da palavra deles. Do versículo 5 até o
final do capítulo, temos o registro das instruções que Ele deu, a fim de que
pudessem prosseguir corretamente em sua missão.
O primeiro item
de instrução dizia respeito à esfera de seu serviço – nem gentios nem samaritanos,
mas apenas as ovelhas perdidas de Israel. Isto de uma vez por todas revela
decisivamente que o evangelho hoje não é pregado sob esta comissão. A serviço
de uma teoria falsa, o versículo 6 foi mal interpretado para significar que
eles deveriam ir aos israelitas espalhados entre as nações. A palavra “perdidas”, no entanto, significa
espiritualmente perdidas. Se Jeremias 50 for consultado, e lidos os versículos
6 e 17, será visto que Israel é tanto “perdida”
como “dispersa”. Eles estão perdidos
porque foram desviados por seus pastores – espiritualmente perdidos. Eles estão
espalhados pela ação dos reis da Assíria e Babilônia – geograficamente
dispersos. Essa distinção no uso das duas palavras parece ser observada por
toda a Escritura. Os discípulos nunca saíram da terra de Israel enquanto Cristo
estava na Terra, mas pregaram aos judeus espiritualmente perdidos que estavam
ao redor deles.
No versículo 7 a
mensagem deles é resumida em 6 palavras – “É
chegado o reino dos céus”. Isto está exatamente de concordo com o que foi
pregado por João Batista (Mt 3:2), e pelo próprio Senhor (Mt 4:17), exceto que
aqui a palavra “Arrependei-vos” é
omitida. Era uma mensagem muito simples, dificilmente permitindo muito
acréscimo ou variação. Eles não podiam pregar coisas ainda não realizadas; mas
o Rei predito estava presente em Sua própria terra e, portanto, o reino estava
próximo deles. Que eles anunciaram foram as boas-novas do reino, e eles
deveriam apoiar o que disseram, mostrando o poder do reino em trazer gratuitamente
cura e libertação.
Além disso,
deveriam descartar toda a provisão normal de um viajante prudente, e assim ser
manifestamente dependente de seu Mestre para todas as suas necessidades; e, ao
entrar em qualquer lugar, deveriam procurar os “dignos”, isto é, aqueles que temiam o Senhor e que manifestavam
sua recepção do Mestre pela recepção de Seus servos. Eles deveriam prestar
testemunho contra aqueles que não O recebessem, e que consequentemente recusassem
a eles e suas palavras; e a responsabilidade de tais seria muito maior que a de
Sodoma e Gomorra.
Em seguida, Ele
os advertiu claramente que iriam encontrar oposição, rejeição e perseguição, e
eles são instruídos quanto à sua atitude na presença dessas coisas. Isso ocupa
os versículos 16-39. Ao sair entre os homens, eles seriam como ovelhas no meio
de lobos; isto é, eles seriam como seu Mestre em posição, e deveriam ser como Ele também em caráter – prudente e simples. Quando acusados perante os governadores,
eles deveriam descansar em Deus como seu Pai, e não se preocupar em preparar
sua defesa, visto que na hora de sua necessidade o Espírito do Pai deles falaria
neles e por meio deles. O martírio, em alguns casos, jazeria diante deles e, em
todos os casos, eles teriam de enfrentar o ódio de um tipo tal que passaria por
cima de toda a afeição natural. Para aqueles que não fossem martirizados, a perseverança
até ao fim significaria salvação.
O que “ao fim” significa é mostrado no
próximo verso (23) – a vinda do Filho do Homem. Em Mateus 24:3, 6, 13-14,
novamente temos o Senhor falando do “fim”,
com um significado semelhante, pois aí está “o fim dos tempos”. Esta missão então, que o Senhor estava
inaugurando, é para se estender até Sua segunda vinda, e quase que não será
completada até então. Como o versículo 6 havia indicado, as cidades de Israel
eram o campo a ser coberto enquanto eles fossem perseguidos, e sua perseverança
seria coroada pela salvação em Sua vinda. Quando olhamos para trás, parece que
houve alguma falha nessas previsões. Como podemos explicar isso?
A explicação
evidentemente é que esse testemunho da proximidade do reino foi suspenso e será
retomado no tempo do fim. Os discípulos são vistos como homens representativos,
e o que é dito se aplica a eles naquele momento e se aplicará a outros que
estarão em uma posição similar no final dos tempos. O reino, conforme
apresentado naquele momento em Cristo em Pessoa, foi rejeitado e, consequentemente,
o testemunho foi retirado, como vemos em Mateus 16:20. Ele será retomado quando
o granjeio da Igreja estiver completo; e mal será levado ao seu fim quando o
Filho do Homem vier para receber e estabelecer o reino, como havia sido predito
em Daniel 7.
Enquanto isso, o
discípulo deve esperar ser tratado como seu Mestre, e ainda assim ele não
precisa ter medo. Ele será denunciado, difamado e até morto por homens; mas nos
versículos 26-33, o Senhor menciona três
fontes de encorajamento. Primeiro, a
luz resplandecerá sobre tudo, e todas as malignidades dos homens serão
dispersas. A responsabilidade do discípulo é deixar a luz brilhar agora em seu
testemunho. Em segundo lugar, há o
cuidado íntimo de Deus, descendo aos mínimos detalhes. Terceiro, há a recompensa de ser publicamente confessado pelo
Senhor diante do Pai nos céus. Nada, a não ser a fé, permitirá a qualquer um de
nós apreciar e acolher a luz, confiar no cuidado e valorizar mais o louvor de
Deus do que o louvor dos homens.
O versículo 28 é
digno de nota especial, pois de forma definitiva ensina que a alma não está
sujeita à morte, como está o corpo. Deus pode destruir a alma e o corpo no
inferno; mas aqui a palavra “destruir”
é diferente da palavra “matar”, e
significa causar o perecimento, ou a ruína, mas não tem nenhum pensamento de
aniquilação. Não encontramos as palavras “a imortalidade da alma” nas
Escrituras, mas aqui estão palavras de nosso Senhor que afirmam esse fato
solene. As palavras do versículo 34 podem parecer à primeira vista colidir com
declarações como as que temos em Lucas 1:79; Lucas 2:14; ou Atos 10:36. Mas não
há discrepância real. Deus Se aproximou dos homens em Cristo com uma mensagem
de paz, mas Ele foi rejeitado. Neste ponto do evangelho de Mateus, Sua rejeição
está surgindo e, portanto, Ele declara o solene fato de que o efeito imediato
de Sua aproximação será luta e guerra. A paz na terra será estabelecida por Ele
em Sua segunda vinda, e isso os anjos previram e celebraram quando da Sua
primeira vinda. A paz é de fato a coisa final, mas a cruz era a coisa imediata;
e se Ele estava prestes a tomar a cruz, então Seus discípulos devem estar
preparados para a espada e para a perda de suas vidas por amor a Ele. Essa
perda, no entanto, significaria ganho final.
Os versículos
finais mostram que a recepção dos impopulares discípulos seria, de fato, a
recepção do seu impopular Mestre e até mesmo do próprio Deus. Qualquer serviço
assim prestado, mesmo que seja uma coisa pequena como a entrega de um copo de
água fria, não perderá sua recompensa no dia que virá.