A parábola das
dez virgens dá início a este capítulo. Este mundo apresenta uma cena muito
emaranhada em todas as direções. A vinda do Senhor vai produzir um completo desembaraçamento.
Já vimos isso nas parábolas do trigo e do joio, e da rede lançada no mar, em
Mateus. 13, e novamente nos versículos que acabamos de considerar no final de
Mateus 24. Encontramos novamente o mesmo grande fato nesta nova semelhança do
reino dos céus. O Senhor já havia mencionado a Igreja de uma maneira
antecipatória, mas Ele não diz aqui: “Então a Igreja será semelhante...” mas “ o reino dos céus”, que é mais amplo
que a Igreja, embora que a inclua. Portanto, as “dez virgens” não representam a Igreja distintamente, embora estejam incluídas em seu escopo.
Assim, estamos com
certeza corretos em aplicar a parábola aos santos do momento presente – a nós
mesmos. As virgens “saíram” para
encontrar o noivo, e fomos chamados para fora do mundo para esperar pelo
Senhor. Ali sobrevém um período de esquecimento e adormecimento na história da Igreja.
Um grito inspirador sobre a vinda do Noivo foi soado, um grito que disse: “Saí ao Seu encontro” (ARA), isto é, retorne
para a sua posição original como um povo chamado. Enquanto havia sonolência,
havia pouca ou nenhuma diferença discernível entre a verdadeira e a falsa, mas assim
que elas despertaram e voltaram ao seu lugar original, a diferença se
manifestou, e aquelas que não tinham óleo foram reveladas. O óleo representa o
Espírito Santo, e “se alguém não tem o
Espírito de Cristo, esse tal não é d’Ele” (Rm 8:9).
Essa parábola
foi usada para apoiar a ideia de que somente crentes devotados e plenamente
despertos encontrarão o Senhor quando Ele vier, e que os crentes de menor
mérito serão penalizados. Nós acreditamos que isso seja um erro. O ponto por
toda esta passagem é a maneira pela qual a vinda do Senhor fará completa
separação entre aqueles que realmente são d’Ele e aqueles que não são. Nesta
parábola, vemos a separação feita entre o real e o falso na esfera da
profissão, e o selo do Espírito é possuído apenas pelos que são verdadeiramente
de Cristo. O fechamento da porta selou a rejeição do falso. As “insensatas” (TB) não representam os
que caíram, mas que uma vez conheceram o Senhor e foram conhecidos por Ele. A
palavra não é “uma vez Eu te conheci, mas agora te rejeito”, mas sim: “Eu não vos conheço”. Ora, o Senhor
conhece aqueles que são Seus, mas estes eram estranhos para Ele.
No versículo 13,
o Senhor aplica essa parábola a Seus discípulos e a nós. Não conhecemos o tempo
da vinda do Filho do Homem, e devemos vigiar. Assim, mais e mais, Ele traz Seu
ensinamento profético para induzir nosso caráter e comportamento. Ele não nos
dá luz quanto ao que está vindo apenas para informar nossas mentes e satisfazer
nossos desejos. Assim, depois de nos exortar à vigilância, Ele mostra no
restante deste capítulo como Sua vinda nos afetará como servos e, de fato, como
isso afetará o mundo. O desembaraçamento que Sua vinda causará estará completo.
A parábola dos
servos e dos talentos é trazida para reforçar a exortação à vigilância, dada no
versículo 13; e mostra como a vinda do Filho do Homem testará todos os que
tomam a posição de Seus servos, e leva à expulsão de tudo o que não é verdadeiro.
É um pensamento calculado para que todos reflitam que durante o tempo de Sua
ausência; o Senhor tem confiado Seus “bens”
para o Seu povo. Seus interesses foram colocados em nossas mãos, e não podemos
evitar o ponto da parábola, dizendo: “Eu não tenho nenhum dom especial e,
portanto, isso não se aplica a mim”.
O mestre entregou
seus bens aos seus servos, “a cada um”
deles, e Ele teve a discriminação que Lhe permitiu avaliar a capacidade de cada
um, e assim Ele distribuiu para cada “segundo
a sua capacidade [suas várias
habilidades – KJV]”. Podemos
distinguir, portanto, entre os dons que podem ter sido concedidos a nós e as
habilidades que podemos possuir, sempre lembrando de que o Senhor ajusta a
relação entre as duas coisas. Nossas habilidades se referem aos nossos poderes
naturais, assim como nossos poderes espirituais, e se estes não forem cinco bem
grandes talentos, ou mesmo dois, podem ser apenas um fardo para nós. Se é
assim, o Senhor sabe disso e só nos dá um. Podemos conectar isso com os dons mencionados
em Romanos 12:6-15, que são de tal caráter que se referem a todo o povo de
Deus. Quer o dom concedido seja grande ou pequeno, a grande coisa é usá-lo com
diligência.
Igual diligência
foi demonstrada pelos servos que receberam os cinco e os dois talentos. Cada um
conseguiu duplicar o que lhe fora confiado e, quando o senhor deles retornou,
ambos compartilharam igualmente sua aprovação e recompensa. Novamente nesta
parábola, note-se, o contraste não está entre a maior ou menor fidelidade e
diligência, que podem caracterizar verdadeiros servos, mas entre servos que
eram verdadeiros, embora que sua medida de capacidade fosse diferente, e o que definitivamente
não era um verdadeiro servo. Aquele que recebera aquele um talento, ocultou-o
na terra, em vez de usá-lo no interesse do seu senhor; e isso ele fez porque
não tinha verdadeiro conhecimento de seu senhor. Ele alegou saber que ele era
um homem duro, exigindo mais do que o devido, alguém para se ter medo. Seu
senhor o recebeu com base no conhecimento que ele afirmava ter, e mostrou que
sua alegação só agravou sua culpa, pois se então ele fosse um homem duro, mais
razão haveria para o uso diligente do talento confiado.
Na realidade, o
senhor era tudo menos um homem duro, como testemunhado pelo seu tratamento com os
servos que eram bons e fiéis. O ponto da questão era que este servo não tinha
conhecimento verdadeiro de seu senhor, nenhum elo verdadeiro com ele. Como
resultado, ele perdeu tudo o que lhe havia sido confiado e foi lançado nas
trevas exteriores, onde havia choro e ranger de dentes, assim como foi o falso servo
retratado no final do capítulo anterior. Na parábola semelhante registrada em
Lucas 19, a distinção é feita entre os diferentes servos com seus graus de zelo
e fidelidade, e eles são recompensados de acordo. O servo com uma mina sofre
perda, mas ele não é lançado nas trevas exteriores. É digno de nota que, em
ambos os casos, o fracasso é visto com o homem a quem é confiado o mínimo. Se
investigarmos nossos próprios corações, reconheceremos que, quando somos
capazes apenas de coisas pequenas, nossa tendência é não fazer nada. O Senhor
certamente honrará o servo que, embora de pequena capacidade, faz as pequenas
coisas com zelo e fidelidade.
O parágrafo
final deste capítulo (vs. 31-46) não é apresentado como uma parábola. As
parábolas começaram com o versículo 32 de Mateus 24, e agora que estão completas,
o versículo 31 retoma o fio da narrativa profética a partir do capítulo 24:31.
Quando Ele vier, o Filho do Homem não apenas reunirá Seus eleitos, mas
convocará as nações diante d’Ele, para que possa haver um completo desembaraçamento
por toda a Terra do bom e do mal. Todas as nações devem ser reunidas diante d’Ele,
e a cena acontece na Terra. No julgamento final, quando a Terra e o céu fogem,
predito em Apocalipse 20, nenhuma nação aparece: são apenas “os morto, pequenos e grandes”, pois na
morte todas as distinções nacionais desaparecem.
Outras
escrituras nos informam sobre os julgamentos marciais a serem executados por
Cristo em Pessoa, quando no Armagedom, os poderosos exércitos dos vários reis
da Terra serão destruídos. Esses julgamentos, no entanto, ainda deixarão
multidões de não-combatentes, e todos estes devem passar diante do escrutínio
do Filho do Homem, pois somente Ele pode discriminar e desembaraçar com
sabedoria infalível. Ele fará isso como o pastor aparta os bodes das ovelhas; e
as consequências, dependendo do Seu julgamento, serão eternas assim como serão
no julgamento do grande trono branco. Tanto nessa sessão de julgamento quanto
naquela, os homens serão julgados de acordo com suas obras.
O verdadeiro
estado de todo coração é conhecido por Deus totalmente à parte das obras;
todavia, quando o juízo público é instituído, é sempre de acordo com as obras,
uma vez que elas indicam clara e infalivelmente como é esse estado, e assim a justiça
dos juízos divinos é manifestada a todos os observadores. Esses mensageiros,
que o Rei considera como “Meus irmãos”,
haviam saído como Seus representantes, e o tratamento que receberam variou de
acordo com a visão que tinham do Filho do Homem que eles representavam. Aqueles
que criam n’Ele identificaram-se com Seus mensageiros, e ministraram a eles em
sua rejeição e aflições: aqueles que não creram n’Ele não prestaram atenção
alguma a eles. Aqueles que tinham fé declararam isso pelas suas obras. Aqueles
que não tinham fé declararam-no igualmente pelas suas obras.
Tome nota do
fato de que o Rei não acusa os condenados de perseguir e aprisionar Seus
servos, mas apenas ignorá-los – tratando-os com negligência. Isso se encaixa
com a grande questão de Hebreus 2: “Como
escaparemos nós se não atentarmos para uma tão grande salvação?” Naquele
dia, ver-se-á que, se os homens tratam a Cristo com negligência, negligenciando
Seus servos, eles entram em eterna condenação.
Quem são estes “Meus irmãos”? Se considerarmos todo o
discurso profético, do qual esta é a parte final, a resposta não é difícil. No
início de Seu discurso, o Senhor dirigiu-Se pessoalmente a Seus discípulos e
disse-lhes como seriam odiados, afligidos e traídos, mas que o fim só viria
quando “este evangelho do reino”
fosse pregado em testemunho para todas as nações, e que aqueles que perseverarem
ao fim serão salvos. Ele falou como se os discípulos que estavam diante d’Ele
estivessem lá no final, porque Ele os via como representativos desses irmãos.
Os “irmãos” no final do discurso são
os discípulos dos últimos dias, que foram representados pelos discípulos dos
primeiros dias, a quem o Senhor estava falando. Agora, embora estes tenham sido
um pouco mais tarde batizados pelo Espírito no único corpo, que é a Igreja,
como registrado em Atos 2, eles eram naquele momento simplesmente um
remanescente de Israel que havia descoberto o Messias em Jesus, e se uniram a
Ele. Eles representaram um similar remanescente de Israel que nos últimos dias
terá seus olhos abertos e tomará o fio partido do “este evangelho do reino” – partido quando Cristo foi rejeitado na
Terra, e tomado e renovado pouco antes de voltar a Terra para reinar.
No parágrafo
final de Mateus. 25 o fim é chegado. O Filho do Homem é o Rei, os discípulos
que perseveraram até o fim são salvos, as nações são julgadas, o desembaraço do
bem e do mal é completo, o resultado do julgamento é eterno. Três vezes a
palavra “eterno” ocorre. O castigo
do ímpio e o fogo para o qual vão são eternos: a vida em que o justo passa é
eterna. O oposto da vida não é a cessação da existência, como seria se a vida
meramente significasse a existência como resultado da centelha vital que
permanece em nós: Porém é castigo, porque a vida eterna significa toda a esfera
das verdades abençoadas e eternas em que os justos se moverão para sempre. O
ponto aqui não é que a vida esteja neles, mas que eles passam para ela. Naquela
feliz observação, o discurso profético do Senhor termina.